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Além disso, ele conta que muitas dos frequentadores da Confraria
também utilizam o local como um espaço de interação social.
“Ainda somos novidades por aqui. (...) Os alunos aprendem
a fazer os passos, e também criam seu próprio projeto – que,
inclusive, levam para casa depois do término do curso”, relata.
Uma das principais curiosidades apontadas pelo empreendedor
é que já na pesquisa de mercado, foi apontado que 30% dos
interessados pelos cursos eram mulheres e, atualmente, 30 a 32%
das pessoas que cursam na Confraria são do sexo feminino.
Muito mais que artesanato
No segmento da marcenaria feminina se encaixa Marluce
Rodrigues de Almeida, que há alguns anos utiliza a marcenaria
como uma porta para a realização e produção de coisas palpáveis,
o que não encontra em sua profissão de analista de sistemas.
“Quando estou na marcenaria o tempo passa voando, é lá que
esfrio a cabeça, onde me esqueço dos problemas. Por isso digo
que a marcenaria faz parte da minha vida”, explica.
Sem perceber, todos os presentes que dava a seu marido eram
ferramentas, mesas de trabalho, grampos, cavaletes e serra
circular. O objetivo foi se tornando claro no decorrer do uso
dos objetos – era para ela mesma. “Desde pequena algo me
atraia pra área. Na 3ª série com 8 anos tive aulas de artes, e
numa dessas aulas tive de decorar uma colher de pau pra minha
mãe. O trabalho era pirografar e pintar as flores por dentro. Foi
meu primeiro contato com o pirógrafo e com madeiras. Até o
cheiro da madeira sendo lixada e queimada ficaram na minha
lembrança”, conta.
Depois de começar a praticar a marcenaria com seu marido,
a cada peça criada e invenção que se tornava realidade a
animação era maior. “Ampliei minhas possibilidades e vi que
a marcenaria já fazia parte da minha vida, era meu hobby
definitivamente”, diz.
Sobre as obras já produzidas, a lista é longa: armário do banheiro,
gaveteiros pro closet (com 100% de madeiras reaproveitadas),
móvel para a ilha da cozinha, sapateira, portas internas de casa,
e também uma mesa de centro que tem peças em formato de
quebra-cabeça. “Ela pode ser montada com as 9 ou 6 peças.
Levei um ano fabricando esta peça e em 2012 a coloquei no meu
blog e muitas pessoas pediram que eu aceitasse encomendas.
Pretendo em 2014 fabricar essa mesa para atender esses
pedidos”, relata.
Sobre o fato dela ser mulher dentro de uma área considerada
por muitos um trabalho masculino, Marluce fala que já chegou
a ouvir piadas, indiretas e até diretas. “Já teve vendedor
que não quis me atender, já ouvi um cliente perguntar pro
vendedor que me atendia: ‘Tem outro vendedor desocupado
ou só você?’”, narra. “Outras pessoas, apesar de explicar o
que faço, não concordam e afirmam que eu faço artesanato,
chegam a discutir”, conta. O que mais impressiona é que,
segundo a analista de sistemas, o preconceito não vem só do
sexo masculino. “Muitas mulheres acham um absurdo quando
digo o que faço. Reconheço que algumas coisas não posso fazer
sozinha (...). Sei das minhas limitações”.
Marluce explica que não desanima porque cada trabalho tirado
do papel que vira realidade a satisfaz e dá ânimo pra continuar.
“Amarcenaria me completa”, diz. Quando perguntada sobre
uma dica a dar para quem pretende seguir o hobby, ela é direta:
“Primeiro de tudo é tentar. Só podemos saber se é possível
tentando. Eu mesma jamais pensei que fosse conseguir fazer nem
metade do que faço hoje”.
Amesma capacidade de realizar que leva a analista de sistema a
continuar com suas produções é, segundo André Campos, sócio
da Confraria da Madeira, o principal valor adquirido das pessoas
ao fazer os cursos. “É emocionante ver as pessoas, que no
começo achavam que não conseguiriam, saindo com o móvel na
mão, feito por ela própria, e com o olho brilhante pela conquista”,
diz. “O que eles produzem se torna mais que um móvel e um
brinde. Há uma magia”, completa.
(Colaborou Mayara Duarte)