Casas Bahia reduz estoques em 40,5% e perde 4,6 mil funcionários

Perícia judicial revela retração operacional, centros de distribuição ociosos e forte pressão sobre o caixa

Casas Bahia reduz estoques em 40,5% e perde 4,6 mil funcionários

A dimensão das dificuldades enfrentadas pela Casas Bahia ganhou novos contornos com a divulgação de um laudo pericial que revela uma expressiva redução dos estoques, diminuição do quadro de funcionários e forte pressão sobre a disponibilidade de caixa. Os números mostram o tamanho do ajuste operacional realizado pela varejista, uma das principais redes de comercialização de móveis e eletrodomésticos do país.

Segundo levantamento da ACFB Administração Judicial, divulgado em reportagem do jornal O Estado de S. Paulo, o valor dos estoques da companhia caiu 40,5% entre abril e agosto de 2026, passando de R$ 3,18 bilhões para R$ 1,89 bilhão. Em quantidade, a redução foi de 25,2%, com o volume de produtos armazenados chegando a 4,3 milhões de unidades.

A diferença entre as duas variações também chama atenção. O valor médio dos produtos em estoque recuou 20,5% no período, indicando uma mudança importante na composição dos itens armazenados.

Quadro de funcionários encolhe em menos de um mês

Outro indicador relevante aparece na estrutura de pessoal. Entre os dias 3 e 28 de agosto, o número de funcionários passou de 29.737 para 25.090, uma redução de 4.647 pessoas, equivalente a 15,6% do quadro.

A perícia ressalva, entretanto, que os dados não permitem identificar quanto dessa diminuição corresponde a demissões, transferências ou outras movimentações administrativas.

Ainda assim, a velocidade da redução evidencia a intensidade das mudanças realizadas na operação da companhia.

Centros de distribuição apresentam situações diferentes

As visitas realizadas pela administração judicial identificaram áreas ociosas e baixos níveis de estoque em parte da estrutura logística da Casas Bahia.

No centro de distribuição de Ribeirão Preto (SP), por exemplo, foram encontradas áreas desabastecidas e poucos funcionários. A unidade respondeu por apenas 0,01% dos itens movimentados pelos centros de distribuição durante o período analisado.

A situação é diferente em Jundiaí (SP), onde está localizado o principal centro logístico da rede. A unidade mantém movimentação intensa, concentra aproximadamente um terço dos itens movimentados e atende 264 lojas, respondendo por quase 30% da demanda mensal.

O contraste mostra que a retração não ocorre de maneira uniforme, mas revela uma estrutura operacional submetida a ajustes significativos.

Caixa disponível preocupa

A situação financeira também apresenta indicadores de pressão. Segundo a perícia, o menor saldo estimado como disponível em agosto foi de R$ 29 milhões, enquanto a empresa projetava desembolsos médios de R$ 34,5 milhões por dia útil.

Isso significa que, naquele momento específico, o valor disponível não seria suficiente para cobrir sequer um dia de pagamentos previstos.

O laudo também analisou movimentações de contas vinculadas a credores. Dois dias antes do pedido de recuperação judicial, apresentado em 16 de agosto, transferências reduziram o saldo de uma dessas contas de R$ 295,5 milhões para R$ 92,9 milhões em apenas um dia.

Em uma simulação, a administração judicial estimou que, caso houvesse retenção integral de determinadas entradas financeiras, a companhia precisaria de um reforço de caixa entre R$ 212,7 milhões e R$ 257,1 milhões no momento mais crítico de um período de 30 dias.

A perícia identificou ainda repasses diretos de recursos provenientes de vendas a fornecedores. Entre 25 e 31 de agosto, R$ 74,4 milhões foram transferidos de uma conta vinculada para a Whirlpool, movimento considerado relevante para a análise da liquidez da empresa.

Leia: Queda dos juros pode não ser suficiente para reanimar o varejo

Reflexos para a indústria moveleira

Embora o laudo não detalhe a participação dos móveis na redução dos estoques, a situação da Casas Bahia merece atenção especial da indústria, considerando sua importância histórica como canal de distribuição de móveis no mercado brasileiro.

Uma redução expressiva dos estoques de uma grande rede pode representar menor necessidade de reposição de mercadorias, com possíveis consequências para o volume de pedidos encaminhados aos fabricantes.

Ao mesmo tempo, restrições de caixa e mudanças nas condições de pagamento podem aumentar a exposição financeira dos fornecedores, especialmente daqueles que dependem de grandes redes varejistas.

O caso se soma a outros episódios recentes de dificuldades no comércio de móveis, como o pedido de recuperação judicial da Sidlar, rede paulista com 15 lojas, e os problemas financeiros e operacionais enfrentados pela Kitchens, tradicional marca de planejados de alto padrão.

São empresas com características e públicos diferentes, mas que ajudam a dimensionar os desafios enfrentados pelo setor em um ambiente de juros elevados, crédito caro e consumidores cautelosos.

No caso da Casas Bahia, a perícia constatou que as atividades continuavam funcionando, incluindo lojas físicas, centros de distribuição e canais digitais.

O funcionamento das operações, entretanto, não elimina os sinais de pressão financeira identificados no levantamento.

Para a cadeia moveleira, o alerta é evidente: as dificuldades dos grandes canais de distribuição podem ultrapassar o comércio e alcançar a indústria, afetando pedidos, recebimentos, produção e empregos.

 

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