Estudo global da IKEA traz um recado para a indústria de móveis
Consumidores não querem ter menos coisas, mas precisam de móveis que ajudem a organizar melhor a vida

Existe uma diferença considerável entre a casa que aparece nas fotografias de decoração e aquela em que as pessoas realmente vivem.
Na primeira, bancadas estão livres, objetos perfeitamente organizados, cabos desapareceram e cada coisa parece ter encontrado seu lugar. Na segunda, há carregadores que ninguém sabe onde guardar, papéis acumulados, objetos esperando destino e pelo menos uma gaveta onde acaba tudo aquilo que não cabe em nenhuma categoria. Essa segunda casa acaba de ganhar dimensões globais.
O relatório IKEA Store & Organize 2026: Finding Meaning in the Mess, baseado em pesquisa realizada pela YouGov com 31.488 pessoas em 31 mercados, mostra que a relação das pessoas com organização, armazenamento e desordem doméstica é bem mais complexa do que simplesmente desejar uma casa impecável.
E, por trás de números curiosos e algumas situações quase engraçadas, existe um recado bastante sério para quem projeta e fabrica móveis. O consumidor não parece querer simplesmente ter menos coisas. Ele precisa encontrar maneiras melhores de conviver com aquilo que possui.
A famosa gaveta onde cabe tudo
Um dos números mais reveladores do estudo é também um dos mais fáceis de reconhecer dentro de casa: 68% dos lares possuem uma gaveta ou caixa destinada a tudo aquilo que não tem lugar definido. Mais da metade dos entrevistados, 53%, reconhece essa gaveta como sua.
Cabos estão entre as peças frequentes desse pequeno território doméstico. Pode parecer apenas uma curiosidade, mas há outra maneira de interpretar o dado.
Se quase sete em cada dez casas precisam improvisar um espaço para objetos sem endereço, talvez exista uma distância entre a maneira como os móveis são organizados internamente e aquilo que a vida contemporânea realmente precisa guardar.
Celulares, carregadores, fones, controles remotos, documentos, medicamentos, chaves, pequenos eletrônicos e uma infinidade de objetos passaram a disputar espaço com aquilo que tradicionalmente determinava o desenho interno de armários, estantes, racks e gavetas.
A “gaveta da perdição”, como o relatório a chama, pode ser vista também como uma pequena falha de projeto à espera de solução.
Quando até o forno vira armário
Outro resultado leva essa improvisação ao extremo: uma em cada dez pessoas entrevistadas utiliza o forno para guardar objetos. Na Coreia do Sul, essa proporção chega a 21%.
Não significa necessariamente falta absoluta de espaço. Pode indicar também falta do espaço certo. Essa diferença é importante para a indústria moveleira.
Criar mais armários não resolve obrigatoriamente o problema de organização. É preciso pensar em como esses espaços são distribuídos, acessados e utilizados.
Gavetas com divisores, compartimentos específicos, ferragens que permitam aproveitar áreas antes inacessíveis, armazenamento vertical, módulos internos adaptáveis e soluções ocultas podem entregar mais funcionalidade sem necessariamente aumentar as dimensões do móvel. Em residências menores, isso ganha importância ainda maior.
O minimalismo encontra a vida real

Talvez uma das descobertas mais interessantes do levantamento esteja na relação emocional com os objetos.
Mesmo com residências menores e anos de valorização do minimalismo na arquitetura e no design, 59% dos entrevistados preferem uma casa com aparência de habitada a uma casa minimalista. E nada menos que 82% guardam objetos exclusivamente por razões sentimentais, ainda que raramente os utilizem ou sequer os mantenham à vista.
São fotografias, lembranças de viagens, presentes, cartas, objetos herdados, peças ligadas à infância ou simplesmente coisas que, para quem observa de fora, talvez não tenham valor algum.
Para quem mora naquela casa, têm história.
A pesquisa sugere, portanto, uma mudança interessante. Em vez de eliminar objetos para alcançar uma estética idealizada, parte das pessoas parece procurar uma forma de possuir com intenção e preservar aquilo que considera significativo.
Essa interpretação pode produzir consequências no próprio desenho dos móveis. A solução não precisa estar apenas em esconder. Pode estar também em permitir guardar, organizar e exibir.
Estantes, nichos, vitrines, módulos fechados e abertos, sistemas flexíveis e composições personalizáveis podem responder melhor a essa relação afetiva com os objetos do que ambientes pensados exclusivamente para permanecer visualmente vazios.
Leia: IKEA aposta em móveis transportáveis para acompanhar mobilidade
A batalha acontece na cozinha
Se existe um ambiente onde organização e convivência doméstica se encontram, é a cozinha.
Segundo o estudo, a bancada é apontada por 24% como o espaço mais difícil de manter organizado e por 37% como o local da casa mais propenso a provocar discussões relacionadas à desordem. O dado conversa diretamente com uma das grandes transformações recentes desse ambiente.
A cozinha deixou de ser apenas espaço de preparo e passou a dividir funções com sala de jantar, convivência e entretenimento. Quanto mais integrada aos demais ambientes, maior também a necessidade de conciliar utilização intensa e organização visual. A bancada é talvez o melhor retrato dessa disputa.
É preciso deixar cafeteira, utensílios e pequenos eletrodomésticos acessíveis, mas deseja-se uma superfície limpa. É necessário ter objetos à mão, mas não necessariamente à vista.
Para fabricantes de cozinhas e móveis planejados, existe aí um campo enorme para inovação: armários de bancada retráteis, tomadas escondidas, módulos para pequenos eletrodomésticos, despensas internas, gavetas especializadas e sistemas capazes de transformar rapidamente uma área operacional em uma superfície visualmente organizada.
Arrumar ou apenas mudar a bagunça de lugar?
A chegada de visitas também revela como as pessoas administram o problema.
Segundo a pesquisa, 34% transferem a desordem de um cômodo para outro antes de receber convidados. Mais surpreendente: uma em cada dez pessoas admite já ter cancelado planos com amigos porque considerava a casa bagunçada demais para recebê-los. É um detalhe divertido até percebermos o que ele significa.
Organização doméstica não está relacionada apenas à aparência. Pode interferir na maneira como as pessoas se sentem dentro da própria casa e até na disposição para compartilhá-la. O móvel entra diretamente nessa equação.
Quanto mais simples for guardar, acessar e devolver um objeto ao seu lugar, menor será o esforço necessário para manter o ambiente funcional.
Talvez a boa organização seja justamente aquela que exige menos organização.
Nem toda bagunça incomoda

O estudo traz, porém, um contraponto importante: 15% das pessoas enxergam a desordem como uma forma de criatividade. Na China, essa parcela chega a 31%; no Japão, fica em apenas 4%. Até entre aqueles que se consideram fanáticos por limpeza há quem concorde com essa percepção.
Isso impede uma conclusão simplista de que o consumidor esteja procurando móveis capazes de esconder tudo.
Talvez procure algo mais sofisticado: controle sobre aquilo que deseja mostrar e aquilo que prefere guardar.
Uma casa excessivamente organizada pode perder justamente aquilo que seus moradores querem preservar: identidade.
É nesse equilíbrio que surgem oportunidades interessantes para o design.
O móvel precisa entender melhor quem mora na casa
A própria IKEA interpreta os resultados como sinal de que as pessoas estão menos interessadas na casa perfeita e mais preocupadas em construir ambientes que reflitam personalidade, histórias e memórias.
Para a indústria moveleira, a conclusão talvez possa avançar um pouco mais.
Durante muito tempo, a função de armazenamento foi resolvida principalmente pela quantidade: mais armários, mais gavetas, mais prateleiras.
Agora, talvez seja necessário pensar cada vez mais na qualidade desse armazenamento.
Onde fica o carregador? Onde guardamos aquilo que usamos todos os dias? Onde colocamos o objeto que queremos preservar por décadas? O que precisa ficar escondido? O que queremos mostrar? Como uma gaveta pode mudar de função quando muda a família? Como aproveitar melhor poucos metros quadrados sem transformar a casa em um depósito?
São questões aparentemente banais, mas capazes de orientar novos produtos.
Menos casa perfeita. Mais móvel inteligente.
O relatório da IKEA tem números divertidos. A pessoa que esconde objetos dentro do forno ou transfere toda a bagunça para outro cômodo antes de receber visitas certamente rende boas histórias. Mas talvez a descoberta mais importante esteja por trás dessas histórias.
A casa real é imperfeita porque a vida é imperfeita.
Ela acumula lembranças, compras, papéis, eletrônicos, presentes, objetos sem uso imediato e coisas das quais simplesmente não queremos nos desfazer.
O desafio para a indústria não é ensinar esse consumidor a viver como nas fotografias das revistas de decoração. É desenvolver móveis capazes de funcionar melhor na casa em que ele realmente vive. E talvez a velha “gaveta da bagunça” esteja tentando dizer exatamente isso.
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