Fábrica de móveis cobra R$ 20 milhões após aposta em projeto de IA

Artgetto adaptou produção para totens do World ID, e esperava faturar R$ 44 mi; agora busca indenização na Justiça

Fábrica de móveis cobra R$ 20 milhões após aposta em projeto de IA

Uma oportunidade capaz de transformar uma fabricante de móveis de Indaiatuba (SP) em fornecedora de um projeto global de tecnologia terminou em uma disputa judicial de R$ 20 milhões envolvendo nomes como Tools for Humanity (TFH), OpenAI Brazil e Morgan Stanley.

A protagonista brasileira da história é a Artgetto Indústria de Móveis, empresa da região de Campinas que adaptou sua fábrica para produzir as estruturas dos equipamentos utilizados pelo World ID para leitura de íris.

Segundo reportagem do Pipeline, a Artgetto afirma ter investido mais de R$ 500 mil em máquinas, contratação de funcionários e matéria-prima para dedicar sua operação ao projeto. A expectativa era fabricar mais de 2 mil totens, ao valor aproximado de R$ 22 mil cada.

Se o plano tivesse avançado como esperado, a primeira encomenda poderia representar pelo menos R$ 44 milhões em faturamento – quase quatro vezes os cerca de R$ 12 milhões que a empresa faturava anualmente em sua atividade tradicional no setor moveleiro.

Do Google para um projeto global

Há um detalhe particularmente curioso nessa história. Segundo a Artgetto, o primeiro contato da TFH ocorreu por WhatsApp depois que uma busca no Google encontrou fotografias e boas avaliações dos projetos executados pela fabricante.

A empresa teria sido escolhida para ser a única fornecedora dos totens no Brasil e chegou a trabalhar com a perspectiva de futuramente exportar as estruturas para outros mercados.

Os totens exigiam estrutura em alumínio e lâminas de madeira natural importada, em tonalidade determinada pelo cliente estrangeiro. De acordo com a fabricante, parte do trabalho era feita manualmente para atender às especificações do projeto.

Diante da perspectiva do contrato, a Artgetto direcionou sua estrutura à nova operação. “Parei tudo para atendê-los conforme o pedido de exclusividade”, afirma Flávia Bertolotti, acionista e diretora comercial da empresa, em declaração ao Pipeline.

Uma decisão mudou o negócio

A TFH, cofundada por Sam Altman, desenvolveu os equipamentos conhecidos como Orbs para o sistema World ID. A operação começou no Brasil em novembro de 2024 e utilizava leitura da íris como forma de verificar a identidade dos participantes.

O cenário mudou no início de 2025, quando a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) proibiu a compensação financeira vinculada à coleta de íris, entendendo que o pagamento poderia comprometer a liberdade do consentimento. Posteriormente, a World anunciou uma pausa nas verificações no Brasil. Para a Artgetto, o efeito foi imediato.

Dos mais de 2 mil totens que esperava produzir, apenas 100 unidades teriam sido efetivamente fabricadas, segundo o relato apresentado pela empresa.

A fabricante afirma ainda que, depois da interrupção do projeto, acumulou 76 protestos em cartório e foi negativada nos cadastros de proteção ao crédito. Agora cobra judicialmente lucros cessantes e a perda de valor do negócio.

Leia: Indústria moveleira debate competitividade, gestão e futuro na FIESC

Disputa chega à Justiça

A Artgetto pede indenização de R$ 20 milhões e incluiu na ação a TFH, a OpenAI Brazil e o Morgan Stanley.

Mas há diferenças importantes entre os papéis atribuídos a cada empresa.

Segundo a petição relatada pelo Pipeline, o Morgan Stanley foi incluído por ter sido escolhido pela TFH para a operação cambial e por supostas falhas nos controles relacionados às remessas internacionais.

Já a OpenAI Brazil foi incluída pela Artgetto sob a alegação de que integraria o mesmo grupo econômico, argumento utilizado pela fabricante para buscar responsabilização e eventual bloqueio de bens. Trata-se de uma tese da autora da ação, ainda sujeita à avaliação da Justiça, e não de responsabilidade já estabelecida da OpenAI pelo contrato.

Procuradas pelo Pipeline, a TFH não respondeu; a OpenAI informou que não comenta processos em andamento; e o Morgan Stanley não quis se manifestar.

Uma aposta muito distante dos móveis

Para o setor moveleiro, o caso deixa uma história incomum.

Uma empresa com faturamento anual de aproximadamente R$ 12 milhões enxergou em uma encomenda de R$ 44 milhões a possibilidade de mudar de patamar. Para atender ao projeto, investiu, contratou e direcionou sua capacidade produtiva a um único cliente e a um produto completamente diferente de sua atividade tradicional.

A oportunidade era extraordinária. A concentração do risco também.

E talvez seja justamente aí que a história da Artgetto ultrapasse a curiosidade de uma fabricante de móveis ter acabado em uma disputa envolvendo empresas associadas a Sam Altman.

Quando um único contrato é grande o suficiente para transformar uma empresa, também pode ser grande o suficiente para colocá-la em risco se desaparecer.

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