Indústria britânica de móveis aposta em IA para ganhar eficiência
Com consumo cauteloso e pressão competitiva, setor reúne fabricantes e varejistas para discutir o uso prático da IA

A inteligência artificial entrou definitivamente na agenda da indústria moveleira britânica. A British Furniture Association (BFA) reuniu fabricantes, fornecedores e varejistas em uma cúpula dedicada exclusivamente às aplicações da tecnologia na produção, comercialização e gestão das empresas.
Realizado em 10 de setembro, no Coventry Building Society Stadium, o BFA AI Summit: Efficiency–Productivity–Possibility teve lotação esgotada e contou com especialistas do Google, Chick Digital, Autonomate, Push Group, Furniture Connect e Anti-Copying in Design (ACID).
O interesse do setor não acontece por acaso. A indústria britânica de móveis atravessa um período no qual produtividade, custos, concorrência e capacidade de conquistar um consumidor mais cauteloso ganharam importância ainda maior.
Mercado continua forte, mas perdeu espaço
Um estudo divulgado em agosto pela própria BFA, elaborado a partir de dados oficiais do Office for National Statistics (ONS) e da HMRC, mostra que os móveis produzidos no Reino Unido representam atualmente 62% do mercado doméstico em valor, ante 65% em 2019.
A situação varia bastante entre os segmentos. Nos estofados com estrutura de madeira, a participação da produção britânica no mercado doméstico caiu mais de 20 pontos percentuais em uma década. Nas cozinhas, entretanto, a indústria local mantém uma posição muito mais sólida: os fabricantes britânicos respondem por 89% do mercado de móveis de madeira para cozinha, segmento que sozinho representa quase metade das vendas de móveis em valor no país.
O varejo também apresenta sinais contraditórios. Dados oficiais mostraram melhora das vendas de móveis em maio e junho, seguida por perda de força em julho.
Levantamento da Mintel divulgado em agosto aponta que a compra de móveis caiu em 2026 na comparação com 2025. A pressão do custo de vida tem levado parte dos consumidores a adiar compras de maior valor, enquanto o mercado de móveis usados aumenta a concorrência nas faixas de preço mais baixas. Em sentido contrário, compras premium acima de £1.000 mostraram maior resistência entre consumidores em situação financeira mais confortável.
O comportamento de algumas grandes redes confirma essa diferença. Em julho, a varejista Dunelm registrou crescimento de 2,9% nas vendas trimestrais, beneficiada inclusive pela procura por móveis de jardim, enquanto a DFS, especializada em sofás, informou queda de 4,4% na entrada de pedidos no semestre, associada à menor confiança do consumidor e ao enfraquecimento das compras de maior valor.
IA entra como ferramenta de competitividade
É nesse cenário que a iniciativa da BFA ganha outra dimensão. A discussão não ficou concentrada em ferramentas generativas ou nas possibilidades mais conhecidas da inteligência artificial.
Fatou Fall, do Google Cloud (foto), abordou aplicações da IA na fabricação e no varejo de móveis. Jamie Claret, CEO da Autonomate, discutiu por que muitos projetos de inteligência artificial não conseguem avançar dentro das empresas, enquanto Dids Macdonald, da ACID, tratou de uma questão particularmente sensível para uma indústria baseada em criação: IA e propriedade intelectual.
Na área comercial, Steve Hyde, CEO e cofundador do Push Group, apresentou possibilidades de utilização da IA e da automação para alcançar consumidores, melhorar o marketing e aproveitar oportunidades tanto no ambiente digital quanto nos showrooms.
Pavir Patel, da Furniture Connect, mostrou aplicações relacionadas ao fluxo de informações entre fornecedores e varejistas, desde os dados do produto até sua disponibilização para venda.
São aplicações que atacam justamente alguns dos pontos mais sensíveis do varejo de móveis: produtividade, integração de informações, marketing, relacionamento com clientes e eficiência operacional.
Leia: Fabricantes britânicos apostam em inovação e qualidade para crescer
Consumidor continua cauteloso
Embora as vendas totais do varejo britânico tenham surpreendido positivamente em agosto, crescendo 0,5% sobre julho e 2,4% em relação ao mesmo mês de 2025, o quadro permanece desafiador para produtos de maior valor.
Uma pesquisa recente da KPMG ajuda a dimensionar essa cautela: apenas 9% dos consumidores britânicos pesquisados indicaram móveis, como sofá ou mesa de jantar, entre as compras de maior valor que pretendiam realizar.
Para fabricantes e varejistas, portanto, aumentar eficiência não significa apenas produzir mais rapidamente. Significa conhecer melhor o consumidor, reduzir desperdícios, automatizar processos, tornar o marketing mais preciso e melhorar a capacidade de converter interesse em venda.
Phil Spademan, diretor-geral da BFA, resumiu essa mudança ao afirmar que a inteligência artificial deixou de ser uma perspectiva distante e já faz parte da realidade das empresas. A proposta do encontro, segundo ele, foi justamente fornecer conhecimento para que o setor possa incorporá-la às decisões futuras.
O fato de a primeira cúpula dedicada ao tema ter esgotado sua capacidade talvez seja tão revelador quanto as tecnologias apresentadas. Em um mercado no qual a produção britânica ainda domina o consumo doméstico, mas vem perdendo participação e enfrenta um consumidor mais seletivo, a IA começa a ser tratada menos como novidade e mais como ferramenta de competitividade.
Para o setor moveleiro brasileiro, vale acompanhar esse movimento. Muitos dos problemas que levaram fabricantes e varejistas britânicos a discutir inteligência artificial – produtividade, integração entre indústria e varejo, gestão de dados, marketing digital e conversão – estão longe de ser exclusividade do Reino Unido.
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