Indústria moveleira tem mais de R$ 415 milhões na RJ da Casas Bahia

Levantamento da Móveis de Valor identifica ao menos 55 fabricantes de móveis, colchões e estofados entre os credores

Indústria moveleira tem mais de R$ 415 milhões na RJ da Casas Bahia

A recuperação judicial do Grupo Casas Bahia alcança muito além dos bancos e grandes fabricantes de eletroeletrônicos que aparecem entre os principais credores da companhia. Um levantamento realizado pela Móveis de Valor a partir dos quadros de credores divulgados pela empresa revela uma exposição expressiva da indústria brasileira de móveis, colchões e estofados.

A análise identificou ao menos 55 fabricantes diretamente ligados a esses segmentos, com créditos que, somados, ficam na casa dos R$ 415 milhões. O número não inclui a cadeia de matérias-primas, componentes e insumos, que também reúne empresas importantes entre os credores.

Trata-se de um recorte que não aparece originalmente nos documentos da recuperação judicial. A relação apresenta os credores segundo sua classificação jurídica e não por atividade econômica. Por isso, a Móveis de Valor realizou uma leitura individual das empresas, cruzando razões sociais, CNPJs e atividades conhecidas no mercado.

O resultado ajuda a dimensionar quanto da indústria que abastece uma das maiores redes varejistas do país está diretamente exposta ao processo.

Linoforte lidera entre os fabricantes

A maior exposição identificada entre fabricantes do setor é da Linoforte Móveis, com crédito de R$ 77,69 milhões. O valor aparece na relação como decorrente de operações com fornecedores.

Na sequência está a Itatiaia Eletro e Móveis, com R$ 45,91 milhões, seguida pela Indústria e Comércio de Móveis Europa, de Ubá (MG), com R$ 33,96 milhões.

Outros valores chamam atenção pela dimensão: a Luizzi Indústria e Comércio de Sofás aparece com R$ 26,03 milhões; a Umaflex, com R$ 24,60 milhões; e a Demóbile, com R$ 22,90 milhões.
A Herval também surge com exposição relevante em duas empresas. A unidade do Rio Grande do Sul tem crédito de R$ 20,27 milhões, enquanto a Herval Nordeste aparece com outros R$ 11,37 milhões. Juntas, as duas operações somam aproximadamente R$ 31,64 milhões.

Também fazem parte do grupo de maior exposição Mademarques Móveis, Poliman, Cama Inbox e Artely, todas com créditos superiores a R$ 10 milhões.

Móveis concentram a maior parcela

A predominância de fabricantes de móveis na relação é clara. Além dos nomes de maior valor, aparecem empresas tradicionais de diferentes polos industriais brasileiros.

Entre elas estão Viero, MGA, Nesher, Nobre Móveis, Barreto Loncarcci, Colibri, Matrix, Santos Andirá, Roville, Politorno, Madetec, DJ Móveis, Móveis Peroba, Patrimar, Kit's Paraná, Multimov, Nova Mobile, RBF Móveis, RGS, Artany e Móveis Quadri.

A presença dessas empresas mostra que o impacto não está limitado a uma determinada região ou tipo de produto. Há credores em polos como Arapongas e Sabáudia, no Paraná; Bento Gonçalves e outras cidades do Sul; Ubá, em Minas Gerais; Linhares, no Espírito Santo; e municípios paulistas com forte atividade moveleira.

Só Poliman aparece com R$ 12,61 milhões, Viero com R$ 5,41 milhões, Colibri com R$ 4,24 milhões e Nobre Móveis com R$ 4,46 milhões.

Santos Andirá possui crédito de R$ 3,55 milhões, MGA de R$ 5,76 milhões, Madetec de R$ 3,14 milhões e DJ Móveis de R$ 2,89 milhões.

Colchões também têm exposição relevante

A indústria de colchões forma outro núcleo importante entre os credores.

A Umaflex aparece com R$ 24,60 milhões, enquanto a Herval, que atua tanto em móveis quanto em colchões e espumas, possui exposição superior a R$ 31 milhões considerando suas duas empresas.

A relação inclui ainda Maranhão Colchões, com R$ 7,13 milhões; Base Indústria de Colchões, com R$ 5,63 milhões; Oryon, com R$ 2,99 milhões; e Colchões Castor, com R$ 2,47 milhões.
Também aparecem Americanflex, com pouco mais de R$ 1 milhão, Nordeste Indústria e Comércio de Colchões, Ortonorte, Bioflex Mol, Comfort Prime e King Komfort.

A Americanflex consta no quadro com crédito de R$ 1,01 milhão e é identificada no próprio documento como empresa em recuperação judicial.

Estofados ampliam a lista

O levantamento também encontrou fabricantes cuja atividade está mais diretamente relacionada aos estofados.

O principal deles é a Luizzi, com pouco mais de R$ 26 milhões, seguida pela Cama Inbox, com R$ 11,83 milhões. Também aparecem Next Sofás e King Komfort, esta última identificada formalmente no documento como indústria de estofados e colchões.

A classificação por segmento exige alguma cautela porque várias empresas atuam simultaneamente em móveis, colchões, espumas ou estofados. Por essa razão, a análise considera a atividade predominante ou a própria denominação empresarial, sem duplicar valores no total.

O efeito chega aos fornecedores da indústria

A exposição da cadeia, porém, não termina nos fabricantes de produtos acabados.

Empresas que fornecem painéis, ferragens, tintas, vernizes, espumas, poliuretanos, vidros, EPS, papéis decorativos e componentes também aparecem entre os credores.

Entre os nomes mais relevantes estão a Dexco, com crédito de R$ 20,30 milhões, e a Eucatex, com R$ 6,81 milhões. A Bigfer, importante fornecedora de ferragens para móveis, aparece com R$ 3,08 milhões.

Também estão na relação a CBP Indústria Brasileira de Poliuretanos, com R$ 4,36 milhões, e a Mercosul Espumas Industriais, com R$ 2,42 milhões.
Entre os fornecedores diretamente ligados à produção moveleira aparecem ainda Rochesa, Brasmacol, Metalúrgica Albras, Isonew EPS, Bobinex, SB Espelhos e Vidros e diversos fabricantes de componentes.

A Rochesa possui crédito de R$ 3,93 milhões, enquanto Albras aparece com R$ 1,52 milhão, Isonew com R$ 1,07 milhão e Bobinex com R$ 1,16 milhão.

Bartira cria uma segunda frente de exposição

Há ainda uma particularidade importante no processo. A Indústria de Móveis Bartira, empresa do próprio grupo, possui seu próprio conjunto de credores.

Nesse quadro surgem fornecedores especialmente ligados à fabricação de móveis, o que amplia o impacto da recuperação judicial sobre a cadeia produtiva.

Rochesa, Euroquadros, Brasmacol, Metalúrgica Albras, IMD/Rivatti e Isonew são alguns dos nomes relacionados diretamente como credores da Bartira.

Essa distinção é importante porque evita somar indiscriminadamente créditos contra empresas diferentes do grupo. Ao mesmo tempo, demonstra que a crise alcança tanto quem fornece produtos acabados às lojas quanto quem abastece a própria operação industrial da companhia.

Leia: Recuperações judiciais acendem alerta no grande varejo de móveis

Uma conta que ultrapassa os fabricantes

Os aproximadamente R$ 415 milhões identificados entre fabricantes de móveis, colchões e estofados não representam, portanto, toda a exposição do setor.

Quando entram no radar fabricantes de painéis, ferragens, tintas, espumas, químicos, vidros, revestimentos e componentes, o valor relacionado à cadeia moveleira cresce.

Mais importante que chegar a um número único é compreender a extensão desse efeito.

A recuperação judicial de uma empresa com a dimensão da Casas Bahia não permanece restrita ao balanço de uma varejista. Ela percorre a cadeia no sentido inverso: chega aos grandes fornecedores de móveis, alcança fabricantes médios e pequenos e, em seguida, atinge as empresas que fornecem matéria-prima e componentes para essas indústrias.

É justamente aí que o quadro de credores ganha outra dimensão.

Mais do que uma relação de empresas com valores a receber, ele mostra o grau de dependência existente entre indústria e grande varejo, e quanto uma crise na ponta da venda pode rapidamente se transformar em risco para quem está muitos elos atrás do balcão.

Para uma indústria que já convive com crédito caro, margens pressionadas e consumo irregular, mais de R$ 400 milhões presos em uma recuperação judicial não se trata apenas de um dado contábil. É dinheiro que deixa de circular na cadeia.

 

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