Jornada menor pressiona empresas do setor a repensar produtividade
NR-1 e debate sobre semana de 40 horas colocam organização, saúde mental e tecnologia entre os desafios das empresas

A discussão sobre redução da jornada de trabalho costuma começar pela quantidade de horas que o profissional permanece na empresa. Mas talvez a questão mais importante esteja em outra pergunta: como essas horas estão sendo utilizadas?
O tema ganha relevância em um momento em que as empresas também precisam ampliar a atenção aos riscos psicossociais relacionados ao trabalho, previstos na atualização da NR-1. Ao mesmo tempo, a redução da jornada para 40 horas semanais permanece em discussão no governo.
Embora sejam assuntos diferentes, ambos acabam colocando em evidência questões como sobrecarga, produtividade, organização dos processos, qualidade das lideranças e utilização de novas tecnologias.

Para Amanda Alves, coordenadora de RH da PKF BSP, a transformação passa pela maneira como as empresas organizam o trabalho. Segundo ela, cabe às organizações oferecer ambientes seguros, combater o assédio, desenvolver suas lideranças e identificar processos que provoquem sobrecarga ou possam ser realizados de maneira mais eficiente.
Menos horas exigem mais produtividade
Uma eventual redução da jornada pode proporcionar mais tempo para descanso, família e vida pessoal. Mas Amanda chama atenção para outra consequência: se houver menos horas disponíveis, será necessário produzir melhor durante o período de trabalho. “A redução precisa vir acompanhada de produtividade e inteligência na organização do trabalho”, afirma.
Isso significa rever tarefas, eliminar etapas desnecessárias, melhorar processos e utilizar capazes de aumentar a eficiência. Segundo Amanda, empresas que não se prepararem para essa mudança poderão enfrentar dificuldades.
A discussão interessa particularmente à indústria, onde nem todas as funções permitem a mesma flexibilidade. Uma atividade administrativa pode ser reorganizada ou parcialmente automatizada com relativa facilidade, enquanto determinadas etapas de uma linha de produção dependem de presença física, ritmo operacional e capacidade instalada. Por isso, não existe uma única solução aplicável a todas as empresas ou funções.
Tecnologia pode devolver tempo
É nesse ponto que a tecnologia ganha importância. Ferramentas digitais e inteligência artificial já permitem automatizar atividades repetitivas, simplificar processos e reduzir o tempo gasto em tarefas que antes dependiam integralmente da intervenção humana.
Para Amanda, esse avanço pode ajudar a devolver às pessoas parte do tempo consumido por atividades que poderiam ser realizadas de outra maneira. Mas tecnologia, sozinha, não resolve o problema. Antes de automatizar, muitas empresas precisarão identificar processos que perderam eficiência ao longo dos anos.
Uma tarefa repetida simplesmente porque “sempre foi feita assim” pode representar desperdício de tempo tanto para a empresa quanto para o funcionário. Nesse sentido, ouvir quem executa essas atividades diariamente pode revelar oportunidades de melhoria que dificilmente aparecem nos níveis superiores da organização.
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Saúde mental não começa nem termina na empresa
A preocupação com os riscos psicossociais também amplia a responsabilidade das empresas sobre o ambiente de trabalho, mas isso não significa atribuir a elas todas as causas relacionadas à saúde mental.
Amanda lembra que fatores familiares, relacionamentos, situação financeira, sono, acesso à saúde, relações sociais e até o ambiente digital também interferem no bem-estar das pessoas.
A responsabilidade, portanto, é compartilhada. À empresa cabe criar condições adequadas de trabalho, prevenir situações de assédio e sobrecarga e manter canais capazes de identificar problemas. Aos profissionais também cabe participar da melhoria dos processos e reconhecer seus próprios limites, dentro das possibilidades de cada função.
Trabalhar menos ou trabalhar melhor?
Talvez seja justamente essa a questão que empresas terão de enfrentar nos próximos anos. Se uma eventual redução da jornada significar apenas comprimir a mesma quantidade de tarefas em menos horas, o resultado poderá ser mais pressão — exatamente o contrário do que se pretende alcançar.
Por outro lado, se o debate estimular empresas a eliminar desperdícios, automatizar tarefas repetitivas, melhorar processos e desenvolver lideranças, poderá produzir ganhos que vão além da quantidade de horas trabalhadas.
Como resume Amanda, “trabalhar menos horas não precisa significar produzir menos – pode significar aprender a trabalhar melhor”.
Nesse cenário, a discussão sobre jornada e saúde mental acaba trazendo uma questão muito mais ampla para dentro das empresas: não apenas quanto tempo trabalhamos, mas quanto desse tempo é realmente produtivo, e quanto ainda é desperdiçado por processos que poderiam ter mudado há muito tempo.
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