Juros altos e consumo fraco ameaçam prolongar crise no varejo de móveis

Famílias endividadas, crédito caro e vendas em queda ampliam as dificuldades do setor para 2027

Juros altos e consumo fraco ameaçam prolongar crise no varejo de móveis

O varejo brasileiro de móveis deverá enfrentar mais um período de dificuldades em 2027. A combinação de juros elevados, famílias endividadas e consumo enfraquecido limita as perspectivas de recuperação das vendas, especialmente nos segmentos que dependem de financiamento e compras parceladas.

Essa é uma das conclusões de análises de BTG Pactual, JPMorgan e Citi reunidas em reportagem da Bloomberg Línea, que examina os desafios do comércio brasileiro no início do quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O quadro já aparece nos indicadores do IBGE. Em agosto, as vendas de móveis e eletrodomésticos recuaram 4,2% em relação ao mês anterior e ficaram 8,5% abaixo do resultado de agosto de 2025. Foi o segundo mês consecutivo de retração de 4,2% no segmento.

O desempenho contrasta com o resultado do varejo brasileiro como um todo, que registrou pequena variação positiva de 0,1% em agosto. A diferença mostra que os produtos de maior valor e mais dependentes do crédito estão entre os mais afetados pela perda de capacidade de consumo.

Famílias têm menos espaço para comprar

O endividamento é um dos principais obstáculos à recuperação. Segundo levantamento do BTG Pactual citado pela Bloomberg, as dívidas das famílias equivalem a 49,8% da renda disponível, enquanto o pagamento de compromissos financeiros consome 29,3% dessa renda.

Na prática, isso significa que uma parcela expressiva do orçamento já está comprometida antes mesmo de o consumidor considerar novas compras.

O problema se agrava com o custo do financiamento. Dados do Banco Central mostram que a taxa média de juros do crédito livre às famílias chegou a 61,7% ao ano, enquanto a inadimplência nessa modalidade alcançou 8%.

Para o comércio de móveis, esses indicadores são particularmente relevantes. A compra de um sofá, dormitório ou conjunto de móveis frequentemente depende de parcelamento. Quando o crédito fica mais caro, o consumidor tende a adiar a decisão, reduzir o valor da compra ou simplesmente desistir.

Juros podem continuar pressionando em 2027

A perspectiva para o próximo ano também exige cautela. O BTG Pactual projeta a Selic em 12,5% ao final de 2027, patamar ainda elevado para estimular uma recuperação consistente do consumo financiado.

Os analistas também apontam riscos relacionados à política fiscal, à inflação e ao câmbio. Dependendo das decisões econômicas do novo governo, o Banco Central poderá encontrar dificuldades para reduzir os juros no ritmo esperado.

Para as redes varejistas, o efeito é duplo: o crédito caro reduz a disposição dos consumidores para comprar e aumenta os custos financeiros das próprias empresas.

A pressão já aparece no mercado de capitais. Após o segundo turno das eleições, ações de grandes varejistas registraram quedas expressivas, refletindo a preocupação dos investidores com a continuidade de um ambiente econômico desfavorável.

Leia: Varejo fatura mais, vende menos e enfrenta nova disputa por clientes

Indústria também sente os efeitos

Embora as análises da Bloomberg estejam concentradas nas empresas de varejo, as consequências alcançam diretamente os fabricantes de móveis.

Quando as lojas vendem menos, os pedidos à indústria tendem a diminuir. Estoques elevados podem provocar adiamento de compras, pressão por descontos e negociações mais difíceis entre fabricantes e varejistas.

O cenário também favorece uma postura mais conservadora dos comerciantes, que passam a privilegiar produtos de maior giro e menor risco de permanência em estoque.

Outro fator é a situação financeira das redes. A reportagem destaca as dificuldades da Casas Bahia, em recuperação judicial, e a possibilidade de concorrentes mais capitalizados ampliarem sua participação no mercado.

Isso indica que a recuperação do varejo poderá ocorrer de maneira desigual, beneficiando empresas com maior capacidade financeira e deixando outras ainda mais pressionadas.

Recuperação depende de mais do que preços

A avaliação dos bancos mostra que os segmentos menos dependentes do crédito, como farmácias e determinados serviços, apresentam melhores condições para atravessar o período de juros elevados.

Para móveis e outros bens duráveis, entretanto, o desafio permanece diretamente associado à recuperação da renda disponível e à melhora das condições de financiamento.

Promoções e descontos podem estimular vendas pontuais, mas dificilmente serão suficientes para sustentar uma retomada enquanto o orçamento das famílias continuar comprometido.

O quadro deixa uma preocupação importante para fabricantes e comerciantes: a dificuldade do setor não está apenas em convencer o consumidor a comprar, mas em encontrar consumidores que tenham condições financeiras de fazê-lo.

Comentários0

Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro.

    Carregando categorias...

    Juros altos e consumo fraco ameaçam prolongar crise no varejo de móveis | Móveis de Valor