Magalu entra no Mercado Livre e redesenha disputa no varejo brasileiro
Acordo coloca móveis e eletros na plataforma rival e mostra como escala, logística e audiência estão mudando o setor

Durante décadas, grandes redes de móveis e eletrodomésticos disputaram consumidores, pontos comerciais, crédito e participação de mercado mantendo uma fronteira bastante clara entre concorrentes. No ambiente digital, essa fronteira começa a desaparecer.
O Magazine Luiza passou a vender, desde 2 de setembro, produtos de estoque próprio dentro do Mercado Livre, justamente uma das plataformas com as quais disputa a atenção do consumidor brasileiro. Cerca de 27 mil itens entram inicialmente no acordo, incluindo móveis, linha branca, televisores, computadores e celulares, além de produtos da KaBuM! e Época Cosméticos. A entrega continuará sob responsabilidade da Magalog, operação logística do grupo.
Mais do que ampliar os canais de venda do Magalu, o movimento sinaliza uma transformação importante no varejo: concorrentes começam a descobrir vantagens em utilizar a infraestrutura e a audiência uns dos outros.
Frederico Trajano, CEO do Magazine Luiza, resume essa mudança afirmando que as fronteiras competitivas estão menos claras e que existe espaço para “cooperação e coopetição”. A estratégia já vinha sendo construída pelo grupo, que também firmou acordos com Amazon, AliExpress, Americanas, Itaú Shopping e Livelo.
A disputa pela audiência ficou cara
Existe uma razão econômica bastante objetiva por trás dessa aproximação.
A audiência do comércio eletrônico brasileiro está cada vez mais fragmentada entre grandes plataformas e conquistar consumidores tornou-se caro. Para o Magalu, colocar seus produtos em marketplaces concorrentes significa chegar a clientes sem precisar necessariamente atraí-los primeiro para seu próprio ambiente.
A estimativa da companhia é significativa: três em cada quatro consumidores que comprarem seus produtos dentro do Mercado Livre serão novos clientes para o Magalu.
O tamanho da audiência ajuda a explicar o interesse. Segundo dados do Retail Think Tank citados pelo NeoFeed, o Mercado Livre liderou os marketplaces brasileiros em 2025, com GMV estimado em R$ 185 bilhões. O Magalu aparecia em terceiro, com R$ 44,3 bilhões, atrás também da Shopee.
Para o Mercado Livre, a parceria também resolve uma necessidade.
O Magalu possui experiência e estrutura justamente em categorias nas quais a logística é mais complexa – móveis, geladeiras, fogões e outros produtos pesados.
Fernando Yunes, líder do Mercado Livre no Brasil, reconheceu ao NeoFeed que o Magalu agrega sortimento, preço e capacidade logística em segmentos nos quais a plataforma ainda possui espaço para avançar.
Móveis e eletros estão no centro da transformação
O movimento ganha dimensão maior quando observado dentro do atual cenário do varejo brasileiro de bens duráveis.
Nos últimos meses, Grupo Toky – controlador de Tok&Stok e Mobly –, Marabraz e Grupo Casas Bahia recorreram à recuperação judicial. Somadas, as dívidas informadas nos processos dessas empresas superam R$ 18 bilhões. Juros elevados, endividamento das famílias e dependência do crédito pressionam especialmente categorias de maior tíquete, como móveis e eletrodomésticos.
Ao mesmo tempo, o comércio eletrônico tornou-se mais concentrado em grandes plataformas capazes de investir pesadamente em tecnologia, logística, marketing e aquisição de clientes.
O Mercado Livre anunciou para 2026 investimentos de R$ 57 bilhões no Brasil, 50% acima do montante do ano anterior, incluindo expansão da infraestrutura logística. A companhia prevê chegar a 42 centros de distribuição fulfillment no País.
Competir isoladamente com estruturas dessa dimensão torna-se cada vez mais caro. E é justamente aí que a decisão do Magalu ganha significado para todo o varejo.
Casas Bahia já havia seguido caminho semelhante
O Magalu não está inaugurando essa estratégia entre as grandes redes de móveis e eletros.
A Casas Bahia começou a vender no Mercado Livre em novembro de 2025 e posteriormente entrou também na Amazon e na Shopee. Segundo análise do Itaú BBA divulgada em julho, as vendas realizadas em marketplaces de terceiros já representavam mais de 5% do GMV total da companhia e cerca de 10% de suas vendas online.
Há um dado particularmente interessante nessa experiência: segundo a mesma análise, embora a Casas Bahia pague comissão às plataformas, essas vendas estariam gerando aproximadamente o dobro do Ebitda das operações realizadas no próprio e-commerce quando dependentes da compra de tráfego.
Isso ajuda a explicar por que empresas que investiram durante anos na construção dos próprios marketplaces agora aceitam colocar seus produtos nas vitrines dos concorrentes.
A pergunta deixou de ser simplesmente “quem possui o cliente?”. Passou a ser também “qual é a maneira mais rentável de chegar até ele?”.
Leia: Consumidor já não separa mais a loja física para comprar pela internet
O paradoxo do Magalu
O momento escolhido pelo Magazine Luiza também chama atenção.
No segundo trimestre de 2026, enquanto as vendas das lojas físicas cresceram 10,3%, chegando a R$ 5,1 bilhões, o e-commerce recuou cerca de 12%, para R$ 9,3 bilhões. As vendas totais diminuíram 5,1%, atingindo R$ 14,5 bilhões.
Ou seja, justamente quando o digital próprio perde força, a companhia procura crescer colocando seu estoque dentro das plataformas que concentram audiência. Mas isso não significa abandonar seus próprios canais.
O Magalu também retomou a expansão física e afirma enxergar menor concorrência e espaço para crescer no offline. Ao mesmo tempo, em seus canais digitais próprios, pretende trabalhar com menos produtos, maior curadoria e utilização de inteligência artificial.
Surge, assim, um varejo aparentemente contraditório, mas talvez mais racional: mais lojas físicas, mais presença nos marketplaces concorrentes e maior especialização nos canais próprios.
A logística vira negócio
Existe ainda outra transformação importante para a cadeia de móveis. O Magalu não quer utilizar sua estrutura logística apenas para entregar aquilo que vende.
Hoje, cerca de 30% da receita da Magalog já vem de clientes externos. A empresa atende companhias como Samsung, O Boticário, Renner e até concorrentes de negócios pertencentes ao grupo.
O acordo com o Mercado Livre poderá avançar justamente nessa direção. As empresas estudam utilizar lojas Magalu como pontos de retirada e devolução de produtos vendidos por outros lojistas da plataforma e ampliar o uso da Magalog para entregas de terceiros, especialmente de produtos pesados. Para móveis e eletrodomésticos, isso é especialmente relevante.
Transportar um smartphone é relativamente simples. Entregar um sofá, um guarda-roupa ou uma geladeira em escala nacional é outra operação.
A infraestrutura construída pelas grandes redes tradicionais para solucionar esse problema começa, portanto, a adquirir valor independentemente de quem realizou a venda.
De concorrentes a parceiros – quando interessa
A aproximação entre Magalu e Mercado Livre não significa o fim da competição. Pelo contrário. As duas empresas continuarão disputando consumidores, vendedores, dados, vendas e participação de mercado.
Mas mostra que a competição deixou de exigir que cada empresa faça tudo sozinha. O Mercado Livre possui uma audiência que interessa ao Magalu.
O Magalu possui sortimento, relacionamento com fornecedores e capacidade de entregar produtos pesados que interessam ao Mercado Livre.
Cada empresa coloca sobre a mesa aquilo que possui de mais valioso e utiliza a estrutura da outra quando isso produz escala ou reduz custos.
Para fabricantes de móveis e colchões, há uma consequência que merece ser acompanhada: os caminhos entre a fábrica e o consumidor estão ficando menos lineares.
Um produto poderá estar no estoque de uma grande rede, ser encontrado dentro do marketplace de outra empresa, financiado por um terceiro agente e entregue pela estrutura logística de um concorrente.
Nesse novo varejo, talvez seja cada vez menos importante perguntar onde começa uma empresa e termina a outra.
A questão que começa a valer bilhões é outra: quem possui escala, eficiência e competência suficiente para executar cada pedaço da venda?
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