Mesmo após falência, Ditália mantém produção e agora terá fábrica leiloada
Com falência decretada e dívida de R$ 85 milhões, fabricante gaúcha tenta preservar a produção e os empregos

Com falência decretada e dívidas estimadas em R$ 85 milhões, o Grupo Ditália terá seu complexo industrial de Monte Belo do Sul (RS) levado a leilão em 10 de novembro, segundo informações divulgadas pelo Portal Adesso. Apesar da situação financeira, a fabricante continua produzindo, e a administração judicial busca um comprador interessado em dar continuidade às atividades.
O aspecto mais importante do processo é que a indústria continua funcionando. A administração judicial pretende vender a fábrica como uma unidade produtiva organizada, permitindo que um novo investidor assuma os ativos e dê continuidade à atividade industrial e comercial.
Recuperação judicial não evitou a falência
Fundada em 1990, em Bento Gonçalves, a Ditália iniciou suas atividades produzindo estofados em um espaço de apenas 70 m². Com o crescimento, transferiu sua estrutura industrial para Monte Belo do Sul, onde consolidou sua atuação na fabricação de móveis.
A trajetória de expansão, entretanto, deu lugar a sucessivas dificuldades financeiras.
A empresa enfrentou uma primeira recuperação judicial em 2015. Em 2021, o grupo voltou a recorrer à Justiça, quando suas dívidas já ultrapassavam R$ 79 milhões. Na ocasião, o processo envolvia mais de 1,2 mil credores.
A falência foi decretada em 3 de junho de 2026, após a rejeição do plano de recuperação judicial em assembleia de credores. A Justiça também considerou que não estavam preenchidos os requisitos legais para aprovar a reestruturação mesmo sem a concordância necessária dos credores.
A defesa da empresa anunciou a intenção de recorrer da decisão, questionando especialmente o resultado da votação da classe trabalhista.
Uma indústria inteira à venda
O leilão não envolve apenas terrenos e prédios. A proposta é comercializar um conjunto de ativos capaz de permitir a continuidade do negócio.
Os documentos da alienação judicial descrevem um complexo com 136.650 m² de terrenos e aproximadamente 40,2 mil m² de área construída, além de máquinas, equipamentos, estoques, marca e estrutura comercial.
O inventário reúne 1.908 itens entre máquinas e outros bens móveis. Os estoques estavam avaliados em aproximadamente R$ 6,58 milhões em maio de 2026, valor sujeito a atualização.
Outro dado chama a atenção: segundo a documentação do procedimento, a venda direta ao consumidor por plataformas de comércio eletrônico respondeu por 90,9% da receita combinada do grupo em 2025.
Isso significa que um eventual comprador poderá encontrar não apenas uma estrutura fabril, mas também uma operação de comercialização já organizada.
A venda está estruturada como Unidade Produtiva Isolada (UPI), modalidade utilizada em processos de insolvência para permitir a alienação de conjuntos produtivos e favorecer a continuidade das atividades.
Leilão teve etapa anterior em setembro
O processo de venda já havia passado por uma fase de captação de propostas, com encerramento previsto para 30 de setembro.
Naquela etapa, os documentos apresentavam uma avaliação econômica de R$ 83,3 milhões para a unidade em continuidade operacional e um preço sugerido de aproximadamente R$ 41,65 milhões.
Agora, as informações divulgadas para 10 de novembro indicam lance inicial de R$ 48 milhões. As condições da nova etapa devem ser observadas conforme o edital e as determinações judiciais aplicáveis.
O valor de avaliação econômica não deve ser confundido com o preço mínimo de venda. Também não significa que a operação já tenha encontrado comprador.
De 600 trabalhadores para 101
A redução do quadro de pessoal ajuda a dimensionar a transformação da Ditália.
Em seu período de maior atividade, a fabricante chegou a empregar aproximadamente 600 pessoas. Atualmente, mantém 101 trabalhadores, segundo informações da administração judicial.
Apesar da falência, os pagamentos aos empregados e fornecedores envolvidos na operação corrente estão sendo realizados em dia, conforme divulgado pelos responsáveis pelo processo.
A estratégia de vender a unidade funcionando procura preservar o valor do negócio e aumentar as possibilidades de continuidade da produção. A manutenção futura dos empregos, entretanto, dependerá da concretização da venda e das decisões do eventual comprador.
Leia: Sidlar pede recuperação judicial com dívida de R$ 55,7 milhões em SP
O desafio de preservar a capacidade industrial
O caso Ditália expõe uma questão relevante para o setor moveleiro: a falência de uma empresa não precisa representar, necessariamente, o desaparecimento de sua estrutura produtiva.
Uma fábrica em operação reúne instalações, equipamentos, conhecimento técnico, trabalhadores e canais comerciais que podem perder valor rapidamente quando as atividades são interrompidas.
A venda organizada procura evitar essa deterioração e oferecer a um investidor a possibilidade de aproveitar uma estrutura já instalada.
Isso não elimina as perdas decorrentes da crise financeira nem assegura a recuperação integral dos créditos existentes. Mas pode representar uma alternativa à paralisação definitiva da indústria.
Depois de duas tentativas de recuperação judicial, o futuro da Ditália dependerá agora da capacidade de atrair um comprador disposto a manter a operação.
A empresa pode não ter conseguido preservar sua estrutura societária, mas ainda existe a possibilidade de preservar sua atividade industrial.
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