México ganha peso estratégico no mercado de móveis dos EUA
Terceiro maior fornecedor dos americanos enfrenta novas tarifas, mas integração produtiva dificulta substituição

A indústria mexicana de móveis chegou a 2026 ocupando uma posição singular no comércio internacional. O país está entre os dez maiores exportadores mundiais e tornou-se o principal fornecedor latino-americano de móveis para os Estados Unidos.
Nos últimos anos, essa relação ganhou dimensões que vão além de uma simples disputa entre exportadores. As vendas mexicanas de móveis para os Estados Unidos mais que dobraram entre 2015 e 2024, impulsionadas pela proximidade geográfica, pelas regras de origem do acordo comercial da América do Norte e pelo avanço do nearshoring.
Segundo dados da CSIL citados no levantamento Mexico, the Irreplaceable Link, aproximadamente 85% das exportações mexicanas de móveis têm os Estados Unidos como destino, enquanto essas vendas representam o equivalente a 78% da produção moveleira do país. O México tornou-se, assim, o terceiro maior fornecedor de móveis do mercado americano, atrás somente de China e Vietnã.
A dependência, porém, funciona nos dois sentidos. Os Estados Unidos necessitam das importações para atender parcela importante do consumo doméstico, enquanto a indústria mexicana depende fortemente do acesso ao mercado americano. Mais do que concorrentes, as duas indústrias passaram a integrar uma cadeia regional de produção e abastecimento.
Tarifas pressionam essa relação
Essa integração enfrenta agora um teste importante. Desde setembro de 2025, determinadas categorias estão sujeitas a novas tarifas americanas. Segundo o documento, há alíquota de 10% sobre madeira de coníferas e de 25% sobre gabinetes, móveis para banheiro e estofados.
Uma elevação que levaria algumas dessas tarifas a 30% e 50% foi postergada, mantendo durante 2026 a base de 25% para os produtos atingidos.
O impacto começa a aparecer nos números. Em Jalisco, um dos principais polos moveleiros mexicanos, a produção do subsetor de móveis recuou 32,3% no primeiro trimestre de 2026 em comparação com igual período de 2025, segundo dados do INEGI apresentados no levantamento.
Pesquisa realizada pela AFAMJAL e pela CIMEJAL mostra ainda que 45% das empresas exportadoras participantes relatam impactos entre 31% e 50% desde 2024. Além das tarifas e da desaceleração americana, a valorização do peso mexicano e a elevação dos custos dos insumos aumentaram a pressão sobre os fabricantes.
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México quer tarifa sobre móvel, não sobre matéria-prima
A reação da indústria mexicana também chama atenção. A AFAMJAL, em conjunto com o Observatório Tecnológico da Universidade de Guadalajara e a CONCAMIN, apresentou ao governo mexicano uma proposta de política tarifária destinada a proteger a produção nacional diante do excesso de oferta internacional.
A entidade defende uma distinção importante: tarifar o móvel acabado importado, mas preservar insumos que a própria indústria mexicana ainda não consegue produzir em quantidade ou qualidade suficientes, como determinados tecidos, ferragens e fibras.
Na avaliação apresentada pelo setor, elevar impostos sobre esses materiais apenas aumentaria os custos da indústria mexicana, sem necessariamente estimular sua substituição por produtos nacionais. A estratégia busca simultaneamente proteger o fabricante local, fortalecer fornecedores regionais e elevar o conteúdo produzido dentro da própria América do Norte.
Uma cadeia difícil de desmontar
O debate ganha ainda mais relevância diante das discussões sobre o futuro do USMCA, acordo comercial entre Estados Unidos, México e Canadá.
A integração construída nas últimas décadas fez com que regiões mexicanas como Nuevo León, Sonora, Baja California, Tamaulipas, Coahuila e Durango assumissem papel relevante no fornecimento ao mercado americano. Jalisco, por sua vez, consolidou-se como importante polo industrial, reunindo fabricantes, mão de obra especializada e capacidade de design.
Isso ajuda a explicar por que elevar tarifas sobre o México pode produzir efeitos também dentro dos próprios Estados Unidos. O documento cita estimativa da National Association of Home Builders segundo a qual as tarifas podem provocar aumento entre 15% e 25% no custo dos móveis residenciais para o consumidor final americano.
A questão, portanto, ultrapassa a discussão sobre proteger uma indústria nacional da concorrência estrangeira. Depois de anos de integração produtiva, México e Estados Unidos construíram uma cadeia em que componentes, produtos acabados, fornecedores e mercados consumidores estão fortemente interligados.
As tarifas podem mudar preços e fluxos comerciais. Desmontar essa dependência, porém, é bem mais complicado. E é justamente isso que torna o México uma peça tão importante no novo tabuleiro mundial do móvel.
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