Muitas regras ampliam dependência europeia de madeira importada
Custos regulatórios e restrições à produção podem enfraquecer fabricantes europeus e favorecer entrada de produtos

A Europa enfrenta um dilema que pode provocar mudanças importantes na cadeia internacional da madeira e, consequentemente, na indústria moveleira. Ao mesmo tempo que amplia as exigências ambientais e os mecanismos de controle sobre a origem das matérias-primas, o continente corre o risco de comprometer a competitividade de seus próprios fabricantes e aumentar a dependência de produtos importados.
O alerta é de Silvia Melegari, secretária-geral da Confederação Europeia das Indústrias da Madeira (CEI-Bois) e da Organização Europeia da Indústria de Serrarias (EOS). Em entrevista publicada pela plataforma especializada Fordaq, a dirigente questiona se as políticas adotadas em Bruxelas estão criando condições para o crescimento da indústria ou dificultando sua capacidade de competir.
A preocupação não está nos objetivos ambientais propriamente ditos. Segundo Melegari, a indústria europeia apoia o combate ao desmatamento e à exploração ilegal de madeira. O problema estaria na complexidade das exigências, nos custos de implementação e na dificuldade de conciliar proteção ambiental com atividade produtiva.
O custo da regulamentação
Um dos exemplos é o Regulamento Europeu para Produtos Livres de Desmatamento (EUDR), que estabelece obrigações de rastreabilidade e diligência para produtos associados a determinadas matérias-primas, incluindo madeira.
Embora reconheça a importância do controle de origem, Melegari argumenta que as exigências inicialmente propostas criaram dificuldades operacionais, especialmente para pequenas e médias empresas.
Grandes grupos industriais possuem departamentos jurídicos, equipes especializadas e sistemas tecnológicos capazes de atender às obrigações regulatórias. Empresas menores, predominantes em diferentes segmentos da cadeia madeireira, nem sempre dispõem da mesma estrutura.
O resultado pode ser um desequilíbrio competitivo: empresas submetidas às mesmas regras enfrentam custos proporcionalmente diferentes para cumpri-las.
Outro problema é o efeito acumulado das regulamentações. Para a dirigente, novas exigências precisam considerar aquelas que já estão em vigor, evitando sobreposições, custos desnecessários e mudanças constantes que dificultam o planejamento empresarial.
O risco de perder a transformação industrial
A questão mais relevante para a cadeia moveleira está no fornecimento de madeira. Melegari observa que determinadas políticas ambientais podem dificultar o aproveitamento produtivo das florestas europeias, mesmo quando realizado de maneira sustentável.
Segundo ela, a gestão florestal ativa precisa ser reconhecida como parte da conservação e do desenvolvimento econômico. A produção de madeira e a manutenção de florestas saudáveis não deveriam ser tratadas como objetivos necessariamente conflitantes.
A dirigente chama atenção para uma consequência potencialmente mais grave: a substituição gradual da produção europeia por produtos industrializados importados.
Existe uma diferença econômica importante entre importar toras para abastecer serrarias locais e comprar madeira já processada ou produtos acabados de outros países.
Na primeira situação, parte relevante da transformação industrial permanece na Europa. Na segunda, atividades produtivas e empregos podem ser transferidos para fornecedores externos.
O fechamento isolado de uma serraria talvez não provoque grande repercussão, observa Melegari. Entretanto, a soma dessas perdas pode enfraquecer progressivamente toda a cadeia de valor da madeira.
Leia: Dados e IA ajudam serrarias a extrair mais valor da madeira
O que isso representa para o Brasil?
A discussão europeia merece atenção da indústria brasileira de madeira, painéis e móveis por duas razões.
A primeira é comercial. Caso a produção europeia enfrente restrições crescentes, fornecedores internacionais competitivos poderão encontrar oportunidades para ampliar sua participação naquele mercado.
O Brasil dispõe de uma cadeia industrial apoiada em florestas plantadas, produção de painéis e fabricação de móveis, características que podem favorecer sua presença em determinados segmentos.
Entretanto, essa possibilidade não representa uma abertura automática de mercado. Os fornecedores brasileiros também precisam atender às exigências europeias de rastreabilidade, comprovação de origem e conformidade ambiental.
A segunda razão é estratégica. O debate europeu demonstra que políticas ambientais e competitividade industrial precisam ser analisadas conjuntamente. Regras concebidas para proteger recursos naturais podem produzir efeitos econômicos indesejados quando sua implementação desconsidera as condições reais de produção.
Para Melegari, a indústria deve participar desse processo com dados, propostas e alternativas viáveis, em vez de simplesmente rejeitar novas regulamentações.
A questão que permanece é até que ponto a Europa conseguirá equilibrar seus compromissos ambientais com a preservação de uma cadeia industrial competitiva.
Se esse equilíbrio não for alcançado, o continente poderá ampliar sua dependência externa justamente em uma atividade para a qual possui recursos florestais, conhecimento tecnológico e tradição industrial.
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