Paraguai amplia estratégia para atrair indústrias de móveis e colchões

Crédito, energia, incentivos e acesso ao Mercosul reforçam uma alternativa industrial que vale colocar na ponta do lápis

Paraguai amplia estratégia para atrair indústrias de móveis e colchões

Durante muito tempo, instalar uma fábrica de móveis ou colchões fora do Brasil poderia parecer uma hipótese distante para boa parte dos empresários do setor. Afinal, mudar uma operação industrial envolve fornecedores, máquinas, mão de obra, logística, matéria-prima e uma rede de relacionamentos construída durante anos.

O Paraguai, porém, está aumentando os argumentos para que pelo menos essa conta seja feita.

O governo paraguaio anunciou em setembro o Paraguay Industrial, programa inicialmente estruturado com US$ 100 milhões para financiar projetos industriais. As condições chamam atenção: até US$ 2,5 milhões por beneficiário, prazo de até 15 anos, carência de até três anos e taxas finais anunciadas de 8,5% ao ano em dólares e 10,5% em guaranis.

Os recursos poderão financiar construção e ampliação de fábricas, infraestrutura, máquinas e equipamentos, incorporação de tecnologia, modernização e aumento da capacidade produtiva.

Isoladamente, já seria uma novidade relevante. Mas talvez seja mais importante observar o movimento como outra peça de uma estratégia mais ampla do Paraguai para atrair produção industrial.

Não é apenas uma questão de impostos

Quando se fala em produzir no Paraguai, a primeira lembrança costuma ser a carga tributária. A decisão industrial, entretanto, é bem mais complexa.

Energia, mão de obra, logística, disponibilidade de fornecedores e matérias-primas, distância dos mercados consumidores, produtividade e capacidade de financiamento podem ser mais determinantes do que uma alíquota isoladamente.

É justamente aí que o novo programa ganha importância. O Paraguai procura acrescentar financiamento de longo prazo a um ambiente que o próprio governo apresenta aos investidores a partir de fatores como disponibilidade de energia, estabilidade econômica, localização geográfica e acesso a mercados.

Além do crédito, foi criado o Fondo de Garantía para la Industria (FOGAIN), destinado a complementar garantias de projetos que apresentem condições para financiamento. Na prática, o país procura atacar simultaneamente dois obstáculos recorrentes para novos investimentos industriais: prazo e garantias.

E por que isso interessa a móveis e colchões?

Porque o Paraguai está interessado justamente em ampliar sua base industrial e suas exportações de maior valor agregado. Entre os segmentos destacados pelo programa aparecem madeira e derivados, além de agroindústria, alimentos, bebidas, metalmecânica, têxtil e confecções. Outras atividades industriais elegíveis não estão excluídas.

Isso coloca a indústria moveleira naturalmente dentro da discussão. E há também elementos que podem interessar à produção de colchões, cuja cadeia utiliza componentes têxteis, estruturas metálicas, espumas, embalagens e outros insumos que precisam entrar na equação de viabilidade.

Mas existe uma questão ainda maior. Para um fabricante brasileiro, analisar o Paraguai não significa necessariamente abandonar o mercado brasileiro. Uma fábrica instalada no país pode ser concebida dentro de uma estratégia regional, considerando Brasil e outros mercados do Mercosul – desde que sejam atendidas as regras aplicáveis à origem dos produtos e ao comércio intrabloco.

Esse detalhe muda bastante a conversa. A pergunta deixa de ser apenas “vale a pena transferir minha fábrica?” e pode passar a ser “faz sentido ter uma operação industrial complementar no Paraguai?”

A Maquila entra nessa conta

Outro componente importante dessa estratégia é o regime de Maquila, já utilizado por empresas que produzem no Paraguai com orientação para mercados externos.

Para móveis e colchões, entretanto, qualquer comparação precisa ir além das vantagens tributárias anunciadas. Madeira, painéis, ferragens, tecidos, espumas, químicos, molas e embalagens precisam chegar à fábrica. Depois, móveis e colchões – produtos volumosos e de elevado peso logístico em relação ao valor de determinadas categorias – precisam chegar ao cliente.

É perfeitamente possível que uma vantagem obtida em determinada etapa desapareça em outra. Por isso, a planilha precisa ser industrial, e não apenas tributária.

Leia: Paraguai no radar de moveleiros catarinenses por conta de incentivos

US$ 2,5 milhões não são dinheiro automático

Há também um cuidado importante. A existência da linha de US$ 100 milhões não significa que qualquer empresa interessada terá automaticamente acesso ao financiamento.

As operações serão analisadas por instituições financeiras intermediárias habilitadas pela Agencia Financiera de Desarrollo (AFD). Os projetos precisarão demonstrar consistência industrial, econômica e financeira, capacidade de pagamento e enquadramento nas condições estabelecidas.

Jonathan Roger Linzmeyer, empresário brasileiro e conselheiro internacional que acompanha projetos de implantação industrial no Paraguai, chama atenção justamente para esse ponto.

“O financiamento é uma ferramenta importante, mas ele não substitui a viabilidade do negócio. Antes de discutir quanto uma empresa pode captar, precisamos entender se o projeto industrial se sustenta, onde deve ser instalado, qual será sua estrutura de custos, de onde virá a matéria-prima, para quais mercados irá vender e qual será sua capacidade de geração de caixa.”

É uma observação particularmente pertinente para móveis e colchões.

Antes de mudar a fábrica, vale fazer a conta

Indústrias moveleiras e de colchões costumam ter uma relação forte com seu território. Próximas das fábricas surgem fornecedores, profissionais especializados, transportadores e até polos industriais inteiros. Transferir uma operação significa mexer nessa engrenagem.

Mas talvez seja justamente por isso que a movimentação paraguaia mereça ser observada sem conclusões antecipadas.

O estudo de viabilidade de uma operação desse tipo precisa considerar investimento, custos industriais, produtividade, mão de obra, energia, origem dos insumos, logística de entrada e saída, tributação, incentivos, capital de giro e mercados consumidores.

Não significa que produzir no Paraguai seja necessariamente melhor do que produzir no Brasil. Tampouco que uma indústria brasileira deva transferir sua operação.

Significa algo mais simples: as condições oferecidas pelo país vizinho estão ficando suficientemente atraentes para justificar a comparação.

E quando empresários brasileiros de diferentes setores já produzem do outro lado da fronteira para atender mercados da região, talvez móveis e colchões – historicamente mais resistentes a deslocar suas estruturas industriais – também devam olhar para essa possibilidade sem preconceito.

Não necessariamente para fazer as malas. Mas, pelo menos, para fazer as contas.

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