Preços de móveis sobem menos que a inflação no primeiro semestre
Mobiliário sobe 1,38% no semestre, abaixo do IPCA (3,36%); colchões e móveis para quarto lideram altas

Os preços dos móveis apresentaram comportamento moderado no primeiro semestre de 2026. Entre janeiro e junho, o item mobiliário acumulou alta de 1,38% no Brasil, menos da metade da inflação geral de 3,36% registrada pelo IPCA no mesmo período.
O resultado mostra que, de maneira geral, os preços praticados pelo setor não acompanharam integralmente o avanço do custo de vida. Essa diferença pode refletir tanto uma menor capacidade da indústria e do varejo para repassar custos quanto uma estratégia comercial deliberada de contenção ou redução de preços para estimular as vendas.
Em um ambiente de consumo ainda pressionado por juros, endividamento e maior seletividade das famílias, o preço se transforma em ferramenta competitiva. Reduções e reajustes abaixo da inflação nem sempre significam queda de custos. Muitas vezes, representam promoções, queima de estoques, renegociação com fornecedores ou compressão das margens para aumentar o giro das mercadorias.
Ao mesmo tempo, algumas categorias avançaram muito acima da média do mobiliário, mostrando que não existe um comportamento uniforme no setor.
Mobiliário começa o ano em queda e ganha força gradualmente
O item mobiliário registrou pequenas deflações nos dois primeiros meses do ano. Os preços caíram 0,08% em janeiro e 0,09% em fevereiro.
Em março, houve uma mudança de direção, com alta de 0,45%. O movimento ganhou intensidade em abril, quando os preços avançaram 0,62%, maior aumento mensal do semestre. Em maio e junho, os reajustes desaceleraram para 0,25% e 0,23%, respectivamente.
A trajetória sugere que o início do ano foi marcado por maior agressividade comercial do varejo, possivelmente relacionada à necessidade de movimentar estoques depois das vendas de final de ano e estimular a demanda em um período tradicionalmente mais fraco.
A partir de março, os preços voltaram a subir, mas sem uma aceleração descontrolada. Mesmo com quatro meses consecutivos de aumento, o acumulado de 1,38% permaneceu bastante inferior ao IPCA geral.
Essa diferença pode indicar que o varejo ainda encontra resistência do consumidor para aceitar reajustes maiores. Também pode demonstrar que a indústria está absorvendo parte da elevação dos custos, postergando repasses ou negociando condições para preservar os volumes vendidos.
Móveis para sala ficam mais baratos
Os móveis para sala apresentaram o comportamento mais contido entre as categorias pesquisadas. Os preços acumularam queda de 1,09% no primeiro semestre e recuo de 0,33% em 12 meses.
A categoria registrou deflação em janeiro, março, abril e maio. Houve estabilidade praticamente absoluta em fevereiro e uma pequena alta de 0,28% em junho.
O resultado pode ser interpretado como um sinal de maior pressão competitiva e necessidade de promoção. Salas de estar, estofados, racks e outros produtos desse ambiente costumam ocupar espaço relevante nas lojas e nos estoques. Quando as vendas não respondem na velocidade esperada, o varejo tende a recorrer mais rapidamente a descontos.
Essa queda de preços não significa necessariamente que os custos industriais tenham diminuído. Ela pode representar uma decisão de mercado: reduzir a margem unitária para ampliar a circulação dos produtos e liberar espaço físico e financeiro.
Também é possível que a categoria esteja enfrentando uma demanda mais fraca em comparação com outros segmentos. Produtos com preços persistentemente em queda ou abaixo da inflação geralmente indicam menor poder de repasse ao consumidor.
Móveis para quarto mostram demanda mais consistente
Na direção oposta, os móveis para quarto acumularam alta de 2,82% entre janeiro e junho e de 6,22% nos últimos 12 meses. O avanço foi superior ao do mobiliário geral e também superou a inflação média no acumulado de 12 meses.
O comportamento mensal mostra uma reação mais firme a partir de março. Depois de pequenas quedas em janeiro e fevereiro, os preços subiram 1,32% em março, 0,78% em abril, 0,56% em maio e 0,15% em junho.
A sequência positiva pode indicar uma demanda mais aquecida e maior capacidade de repasse de preços. Quando uma categoria consegue sustentar altas durante vários meses, isso pode significar que o consumidor está aceitando melhor os reajustes ou que o varejo dispõe de menos necessidade de realizar promoções agressivas.
Também devem ser considerados fatores como composição dos produtos vendidos, aumento da participação de itens de maior valor agregado e lançamento de novas linhas. O IPCA mede a variação dos preços ao consumidor, mas o resultado pode ser influenciado pela mudança no perfil da oferta disponível no mercado.
Leia: Produção de móveis melhora na margem, mas recuperação é desigual
Móveis para cozinha sobem acima do mobiliário geral
Os móveis para cozinha acumularam aumento de 1,80% no primeiro semestre e de 5,55% em 12 meses. A categoria começou o ano com três meses de comportamento moderado ou negativo, mas registrou forte alta de 1,64% em abril.
Depois desse avanço, os preços subiram 0,22% em maio e 0,24% em junho.
O desempenho pode estar associado à demanda por reformas, mudanças residenciais e projetos de cozinha. É uma categoria na qual o consumidor costuma tomar decisões mais planejadas e aceitar diferenças maiores de preço conforme materiais, dimensões, acabamento e nível de personalização.
A alta acumulada em 12 meses sugere que os fabricantes e varejistas encontraram espaço para repassar custos com mais facilidade do que nos móveis para sala. Ainda assim, o avanço de apenas 1,80% no ano mostra que esse repasse perdeu intensidade no primeiro semestre.
Móveis infantis praticamente não mudam de preço
Os móveis infantis encerraram junho com variação acumulada de apenas 0,06% no ano. Na prática, os preços ficaram estáveis durante o primeiro semestre.
A categoria apresentou alta de 0,81% em janeiro, mas depois alternou avanços e quedas. Houve aumento de 0,12% em fevereiro, recuo de 1,11% em março, alta de 1,07% em abril e novas quedas de 0,60% em maio e 0,21% em junho.
Em 12 meses, a elevação foi de apenas 0,21%.
Esse comportamento pode refletir uma demanda bastante sensível ao preço. O segmento infantil compete não apenas entre marcas e lojas, mas também com o mercado de produtos usados e com decisões familiares de postergação da compra.
A estabilidade prolongada sugere baixo poder de repasse. Mesmo que os custos industriais tenham aumentado, fabricantes e varejistas parecem encontrar dificuldade para transferir integralmente esses acréscimos ao preço final.
Colchões registram a maior alta
Os colchões foram o grande destaque do período. Os preços acumularam alta de 8,71% no primeiro semestre e de 11,25% em 12 meses, muito acima do IPCA geral e de todas as categorias de móveis analisadas.
O desempenho, porém, foi marcado por fortes oscilações. Os preços caíram 0,51% em janeiro, 1,43% em fevereiro e 1,05% em março. Em abril, houve uma alta excepcional de 8,13%, seguida por aumentos de 1,16% em maio e 2,41% em junho.
A intensidade dos reajustes pode refletir uma combinação de fatores. Entre eles estão o repasse de custos de matérias-primas, espumas, tecidos, componentes metálicos, transporte e mão de obra.
Também pode haver uma questão de demanda. Categorias com vendas mais aquecidas oferecem maior espaço para recomposição de margens, especialmente quando o consumidor percebe diferenças de qualidade, tecnologia, conforto e durabilidade.
A concentração da alta a partir de abril também pode estar relacionada a uma recomposição após as quedas do primeiro trimestre. Fabricantes e varejistas podem ter utilizado os primeiros meses do ano para realizar promoções e, posteriormente, reposicionado os preços.
Por ser uma variação muito elevada, o comportamento dos colchões precisa ser acompanhado nos próximos meses. Caso os aumentos continuem, haverá um sinal mais claro de pressão de custos ou de demanda fortalecida. Se houver estabilidade ou redução, parte do avanço poderá ter sido um ajuste pontual.
Capitais também apresentam movimentos muito diferentes
A variação dos preços de mobiliário não foi uniforme entre as capitais pesquisadas. Em junho, São Paulo registrou queda de 0,94%, enquanto Belo Horizonte avançou 1,21%, Fortaleza subiu 1,27% e Porto Alegre teve aumento de 1,18%.
No acumulado do primeiro semestre, o Rio de Janeiro apresentou queda de 1,57% e São Paulo recuo de 0,43%. Em contraste, Belo Horizonte acumulou alta de 3,84%, Grande Vitória avançou 3,18% e Belém registrou aumento de 3,02%.
Curitiba teve elevação de 1,90% no período e Porto Alegre, de 1,77%.
As diferenças regionais podem ser explicadas por condições distintas de demanda, estoques, concorrência, renda, custos logísticos e estratégias comerciais. Em mercados nos quais as vendas estão mais fracas, o varejo tende a utilizar os preços de maneira mais agressiva. Onde a demanda se mantém firme, existe maior espaço para reajustes.
No acumulado de 12 meses, a distância é ainda maior. Os preços do mobiliário caíram 1,05% no Rio de Janeiro, mas subiram 7,01% em Belém, 6,01% em Porto Alegre e 5,61% em Curitiba.
Preço baixo nem sempre significa cenário positivo
Uma leitura superficial poderia concluir que a elevação moderada dos preços de móveis é necessariamente uma boa notícia para o consumidor. Para o setor, entretanto, o quadro é mais complexo.
Quando o varejo reduz preços para destravar vendas, o volume pode crescer, mas as margens ficam pressionadas. Se a indústria também precisa conceder descontos ou absorver custos, a rentabilidade de toda a cadeia pode diminuir.
Por outro lado, aumentos muito elevados não significam automaticamente apenas inflação de custos. Eles também podem refletir demanda forte, menor disponibilidade de produtos ou migração do consumidor para itens de maior valor agregado.
O preço, portanto, funciona como um indicador do equilíbrio entre oferta, demanda, custos e capacidade de negociação.
Indústria enfrenta o desafio do repasse
Para os fabricantes, a principal questão é saber até que ponto os aumentos dos custos podem ser transferidos ao varejo e ao consumidor.
Em categorias com preços estáveis ou em queda, como móveis para sala e móveis infantis, a indústria provavelmente encontra maior resistência para realizar reajustes. Isso pode obrigar as empresas a buscar ganhos de eficiência, reformular produtos, reduzir custos ou trabalhar com margens menores.
Nos móveis para quarto, cozinha e, principalmente, nos colchões, existe maior evidência de repasse. A demanda pode estar mais firme ou os aumentos de custos podem ter se tornado difíceis de absorver.
A capacidade de reajustar preços também depende do posicionamento da marca. Produtos mais diferenciados, com design, tecnologia, personalização ou maior valor percebido, costumam ter mais espaço para repassar custos do que itens altamente comparáveis.
Um mercado dividido por categoria
O primeiro semestre de 2026 mostra que não existe uma única inflação de móveis. Cada categoria respondeu de maneira diferente às condições de mercado.
Os móveis para sala ficaram mais baratos, possivelmente sob pressão promocional e menor força da demanda. Os móveis infantis permaneceram praticamente estáveis. Cozinhas e quartos tiveram aumentos mais consistentes, enquanto os colchões registraram uma elevação muito superior à média.
No conjunto, o mobiliário subiu apenas 1,38%, diante de inflação geral de 3,36%. Isso demonstra que o setor ainda está utilizando o preço como instrumento para sustentar as vendas e que o repasse dos custos ocorre de maneira seletiva.
A expectativa para o segundo semestre é de continuidade dessa diferença entre categorias. Produtos com estoques elevados e demanda mais fraca devem permanecer sujeitos a promoções e contenção de preços. Segmentos com maior procura.
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