Recuperações judiciais acendem alerta no grande varejo de móveis
Casas Bahia e Marabraz recorrem à Justiça ao mesmo tempo, Mobly já atravessa processo semelhante

Em questão de poucos meses, alguns dos nomes mais conhecidos do varejo brasileiro de móveis passaram a dividir uma situação que até pouco tempo atrás pareceria improvável.
O Grupo Casas Bahia acaba de pedir recuperação judicial com passivos declarados de R$ 17,3 bilhões. Um dia antes, a Marabraz havia protocolado pedido semelhante, envolvendo aproximadamente R$ 140 milhões. Desde junho, o Grupo Toky, controlador de Tok&Stok e Mobly, já está com seu processo de recuperação judicial em andamento, depois de recorrer à Justiça em maio com dívidas superiores a R$ 1 bilhão.
São empresas de dimensões, estratégias e problemas diferentes. Portanto, seria equivocado interpretar os três casos como consequência de uma única crise.
Mas também seria difícil considerar mera coincidência o fato de grandes canais de comercialização de móveis enfrentarem, simultaneamente, dificuldades financeiras suficientemente graves para buscar proteção judicial.
Casas Bahia: a dimensão bilionária
O caso de maior impacto é, naturalmente, o Grupo Casas Bahia.
A companhia protocolou na noite de domingo (16) pedido de recuperação judicial na 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo. O processo envolve dez empresas do grupo, incluindo operações ligadas às marcas Casas Bahia e Ponto, o Extra.com.br e a fabricante de móveis Bartira. O passivo declarado alcança R$ 17,3 bilhões.
O pedido ocorre poucos dias depois de a companhia fechar 298 lojas, equivalentes a aproximadamente 29% de sua rede, dentro de um processo de redução de custos e concentração das atividades em operações consideradas mais rentáveis.
Também veio na sequência da divulgação dos resultados do segundo trimestre, quando a empresa apresentou prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões. Grande parte desse resultado decorreu de efeitos contábeis relacionados à reorganização do grupo, mas o desempenho reforçou a dimensão dos problemas enfrentados pela varejista.
Não é a primeira tentativa de reorganização de suas dívidas. Em 2024, a Casas Bahia havia recorrido a uma recuperação extrajudicial envolvendo cerca de R$ 4,1 bilhões. Dois anos depois, a companhia chega à recuperação judicial com um passivo muito maior.
No pedido atual, a empresa relaciona suas dificuldades à deterioração das condições econômico-financeiras, aos juros elevados e à restrição do crédito. A intenção é manter as operações enquanto negocia com os credores uma nova estrutura para suas obrigações.
Leia: Casas Bahia fecha 298 lojas e reduz sua estrutura em nova rodada
Marabraz entra no mesmo cenário
Quase simultaneamente, outro nome histórico do varejo de móveis recorreu à Justiça.
A Marabraz protocolou no sábado (15) pedido de recuperação judicial na 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo. O processo reúne cinco empresas ligadas à operação e envolve passivos de aproximadamente R$ 140 milhões.
A comparação com a Casas Bahia, entretanto, precisa ser feita com cautela.
Além dos juros elevados e da retração do consumo, a Marabraz atribui parte de suas dificuldades a conflitos societários e familiares que prejudicaram o acesso da companhia a novas linhas de crédito. A rede informou que pretende continuar funcionando normalmente, preservando lojas, empregos e relações com clientes e fornecedores.
Ou seja: o ambiente econômico aparece novamente como elemento de pressão, mas divide espaço com problemas particulares da própria companhia.
Tok&Stok e Mobly já enfrentam a recuperação
O terceiro caso começou alguns meses antes.
O Grupo Toky, controlador de Tok&Stok e Mobly, pediu recuperação judicial em maio. Em junho, a Justiça aceitou o processamento do pedido, suspendendo por 180 dias execuções e outras medidas de cobrança sobre dívidas sujeitas à recuperação. O grupo declarou passivo superior a R$ 1 bilhão.
Na ocasião, a empresa apontou entre as causas da crise os juros elevados, a retração no consumo de bens duráveis, os impactos acumulados da pandemia e prejuízos operacionais entre 2022 e 2025. Também mencionou um bloqueio de R$ 77 milhões em recebíveis que comprometeu seu fluxo de caixa.
Os números mais recentes mostram que o processo ainda cobra seu preço.
No segundo trimestre deste ano, o Grupo Toky registrou prejuízo líquido de R$ 232,7 milhões. A receita líquida caiu 37,3%, para R$ 207,1 milhões, e o volume bruto de mercadorias comercializadas recuou 31,9%.
Há ainda um efeito particularmente importante para a indústria: segundo o próprio grupo, o pedido de recuperação abalou a confiança de fornecedores e parceiros, provocando rupturas no abastecimento e redução dos estoques. A companhia afirma que vem conseguindo normalizar gradualmente as compras e o fornecimento.
Leia: Toky obtém recuperação judicial para resgatar dívida de R$ 1,1 bilhão
O que há em comum?
Casas Bahia, Marabraz e Grupo Toky não chegaram à recuperação judicial pelo mesmo caminho. E essa distinção é fundamental.
Há problemas de gestão, estrutura financeira, decisões empresariais e circunstâncias particulares em cada caso.
Mas existe um pano de fundo comum que não pode ser ignorado.
O varejo de móveis trabalha com produtos de maior valor, estoques relevantes e forte dependência de crédito. Juros elevados atingem esse modelo nas duas pontas: aumentam o custo financeiro das empresas e tornam mais caro financiar a compra do consumidor.
Quando o crédito fica caro, uma família pode adiar a troca do sofá, do guarda-roupa ou do colchão com muito mais facilidade do que posterga gastos considerados essenciais.
Para grandes redes, soma-se ainda o custo de manter centenas de lojas, centros de distribuição, estoques, logística, equipes e estruturas administrativas em um momento no qual o consumidor circula cada vez mais entre os canais físico e digital.
O problema, portanto, não está apenas em vender. Está em financiar toda a estrutura necessária para vender.
O sinal de alerta chega à indústria
É justamente aqui que a sucessão de recuperações judiciais deixa de ser um assunto restrito aos varejistas.
Casas Bahia, Marabraz, Tok&Stok e Mobly são também canais de distribuição para centenas de fabricantes e fornecedores.
Quando um grande cliente enfrenta problemas financeiros, a indústria precisa olhar não apenas para o volume vendido, mas para a qualidade daquela venda.
Limites de crédito, concentração do faturamento em poucos clientes, prazos de pagamento, garantias e exposição financeira passam a ter importância ainda maior. O risco de vender muito para um único grande varejista pode se revelar tão relevante quanto o risco de vender pouco.
Há também uma questão competitiva.
O fechamento de 298 lojas da Casas Bahia, a reorganização do Grupo Toky e eventuais ajustes de outras grandes redes podem abrir espaços regionais para varejistas médios, redes locais e operações digitais. Parte das vendas não necessariamente desaparecerá: poderá simplesmente migrar para outros canais.
Isso significa que a crise dos grandes pode representar, ao mesmo tempo, risco para fornecedores excessivamente dependentes deles e oportunidade para empresas que consigam diversificar sua distribuição.
Recuperação judicial não significa falência
É importante fazer uma distinção.
Pedir recuperação judicial não significa encerrar as atividades. O mecanismo existe justamente para permitir que empresas consideradas economicamente viáveis continuem funcionando enquanto reorganizam suas dívidas e negociam condições com os credores.
O sucesso desse processo, entretanto, dependerá da capacidade de cada companhia de recuperar geração de caixa, restabelecer a confiança de fornecedores e credores e construir uma operação compatível com o novo ambiente de consumo.
No caso do Grupo Toky, os efeitos sobre o abastecimento já mostram como essa confiança pode ser decisiva.
Para Casas Bahia e Marabraz, essa etapa começa agora.
Mais do que uma coincidência
Três processos não autorizam decretar uma crise generalizada do varejo brasileiro de móveis. Existem empresas crescendo, investindo e ocupando novos mercados.
Mas também não deveriam ser tratados como episódios sem relação alguma.
Quando Casas Bahia, Marabraz, Tok&Stok e Mobly aparecem simultaneamente associadas a processos de recuperação judicial, há um sinal que merece atenção de toda a cadeia.
Não necessariamente de que o brasileiro deixou de comprar móveis, mas de que determinados modelos de varejo ficaram mais difíceis de sustentar em um ambiente de juros altos, crédito caro, consumidor endividado e transformação acelerada dos canais de venda.
Para a indústria, talvez esteja aí a principal mensagem deste momento.
Mais importante do que perguntar quem será a próxima empresa a enfrentar dificuldades é avaliar quanto cada fabricante depende de poucos grandes clientes e quanto está preparado para um varejo que pode sair deste ciclo mais pulverizado, seletivo e diferente daquele que conhecemos até agora.
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