Restauração preserva a memória do design brasileiro contemporâneo

Casa Viva reúne peças históricas e móveis atuais para mostrar que preservar também é uma forma de morar

Foto: Divulgação
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Em um mercado marcado pela renovação constante de produtos e tendências, móveis criados há décadas começam a ocupar um espaço diferente nos interiores contemporâneos. Mais do que objetos antigos, peças assinadas por alguns dos principais nomes do design brasileiro carregam autoria, técnicas construtivas e parte da própria história do mobiliário nacional.

Empresária e designer de interiores Lucy Bomfim

É a partir dessa perspectiva que a Casa Viva, em Salvador, reúne móveis raros, peças restauradas e produção contemporânea. Idealizado pela empresária e designer de interiores Lucy Bomfim, o espaço combina a curadoria da MS Home com a marcenaria da Dalmóbile e funciona também como showroom no bairro Caminho das Árvores.

A proposta parte de um conceito desenvolvido por Lucy e chamado de “Novo Morar”: ambientes construídos não apenas pela estética, mas pela convivência entre diferentes épocas, referências e histórias.

“O luxo contemporâneo está cada vez menos relacionado ao excesso e cada vez mais àquilo que possui significado, memória e capacidade de permanecer”, afirma. Para ela, misturar o novo, a arte, a decoração, o design de acervo e objetos de valor afetivo ajuda a criar casas com identidade, em vez de ambientes simplesmente montados.

De Sergio Rodrigues a Niemeyer

O acervo ajuda a dimensionar essa proposta. Entre os nomes representados estão Sergio Rodrigues, Oscar Niemeyer e Jorge Zalszupin.

De Sergio Rodrigues aparecem peças como a poltrona Mole, a Tete, o sofá Parati e o banco Mocho. Oscar Niemeyer está representado pela Marquesa e pela Chaise Rio, enquanto de Zalszupin o acervo inclui a Mesa Pétala.

São móveis que ultrapassaram seu período de criação e passaram a integrar a história do design brasileiro. Inseridos novamente em ambientes de uso, entretanto, deixam de funcionar apenas como peças de coleção e voltam à finalidade para a qual foram concebidos.

A curadoria da Casa Viva procura justamente promover essa convivência. Móveis de diferentes períodos e linguagens aparecem ao lado de peças contemporâneas, arquitetura, arte e marcenaria.

Restaurar sem apagar a história

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Nesse processo, o restauro assume papel importante. A intenção não é simplesmente fazer um móvel antigo parecer novo, mas recuperar suas condições de uso preservando características que ajudam a identificar sua trajetória.

O trabalho é realizado em parceria com um artesão ligado à família Bomfim e começa pela análise da estrutura, materiais, desenho, características construtivas e marcas existentes na peça. Somente depois desse diagnóstico são definidos os procedimentos de recuperação, procurando manter os elementos originais.

A diferença é relevante. Em peças de design autoral, uma intervenção inadequada pode eliminar justamente características que ajudam a preservar sua identidade.

Por isso, o restauro passa a dialogar também com uma discussão cada vez mais presente no mobiliário: prolongar a vida útil não significa apenas conservar matéria-prima, mas preservar projeto, autoria e memória.

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O passado não precisa competir com o novo

A experiência da Casa Viva aponta ainda para uma mudança interessante na composição dos interiores. O mobiliário contemporâneo não precisa substituir aquilo que veio antes – e uma peça histórica não precisa transformar uma casa em museu.

A combinação entre diferentes períodos pode produzir justamente o contrário: ambientes menos padronizados e mais relacionados à história de quem vive neles.

Lucy resume essa visão ao afirmar que, quando arquitetura, móveis, arte e referências afetivas são reunidos, “uma casa deixa de ser um endereço e passa a contar uma história”.

É também uma maneira de olhar para o patrimônio do design brasileiro não apenas como algo a ser admirado em livros, exposições ou coleções, mas como mobiliário capaz de continuar cumprindo sua função.

Preservar um móvel, nesse caso, é preservar também uma parte da história de quem o desenhou – e permitir que ela continue sendo vivida.

 

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