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Por que as bets se tornaram vilãs para Magalu e Casas Bahia

Revisado Natalia Concentino - 04 de Outubro 2024
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Imagem: Freepik

Não é novidade que a alta da taxa básica de juros da economia, a Selic, seja um vilão para empresas como Magazine Luiza, Americanas e Casas Bahia. O cenário atual é de que os juros devem encerrar 2024 a 11,75% ao ano, segundo o mais recente boletim Focus. A questão é que, além de o setor enfrentar a alta de juros, um novo concorrente surgiu nos últimos 12 meses, as bets (empresas de apostas online). Para quem olha de fora, pode parecer que isso não tem muita conexão, mas, ao notar estudos do setor, os números começam a ficar preocupantes e acendem o sinal de alerta para os analistas ouvidos pelo E-Investidor.

 

Segundo dados da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), 46% dos brasileiros que apostam afirmam que já deixaram de consumir algum produto para apostar. O estudo aponta que os brasileiros gastam em média R$ 6 bilhões com apostas online por mês. Outros dados chamam ainda mais a atenção.

 

Conforme os analistas do Santander, dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que os gastos com apostas esportivas online representam cerca de 20% do orçamento discricionário das famílias de baixa renda e 36% do orçamento de lazer das classes de renda mais baixa. Jonas Carvalho, CEO da Hike Capital, observa que esses números são resultados de uma sociedade com baixo nível de educação financeira, forte influência de diversas propagandas massivas para o segmento e a busca por retornos rápidos em uma sociedade totalmente desigual.

 

“Em uma sociedade onde as desigualdades são evidentes, muitas vezes esses comportamentos podem ser incentivados pela esperança de escapar de dificuldades financeiras”, diz o especialista. A fala também é reforçada por um estudo do Banco Central, que mostra que 5 milhões de pessoas beneficiárias do Bolsa Família enviaram R$ 3 bilhões às empresas de apostas utilizando o Pix. O gasto médio dessa faixa de renda com as bets por pessoa foi de R$ 100.

 

Ou seja, olhando os números e os dados, o Brasil ganhou um novo setor que consome uma fatia relevante do orçamento das famílias, sejam elas de baixa ou de alta renda. O questionamento que fica para os investidores de Magazine Luiza, Americanas e Casas Bahia é como a nossa atual situação impacta diretamente essas três empresas.

 

Na visão de Daiane Gubert, head de assessoria de investimentos da Melver, o setor varejista tende a ter um grande impacto. Ela estima que todo o segmento deve ter uma redução de até 11,2% de seu faturamento – ou seja, menos R$ 117 bilhões a serem injetados no varejo. “Todas as empresas varejistas serão impactadas, do pequeno lojista às grandes redes”, aponta.

 

Qual segmento do varejo será o mais impactado pelas bets?

 

O consenso dos analistas é de que nem todos os setores no varejo serão impactados da mesma forma. As estimativas apontam que Magazine Luiza, Americanas e Casas Bahia devem sofrer mais com as mudanças, assim como o setor de supermercados.

 

De acordo com Lucas Barbosa, analista da Ativa Investimentos, o setor alimentar será ainda mais impactado pelo fato de ser uma compra recorrente, com predominância mensal. “O consumidor tem o hábito de comprar um iogurte ou uma geleia, mas no mês seguinte ele não compra justamente para apostar nas bets. Ou seja, ele deixa de consumir e gerar receita para o supermercado para injetar dinheiro na empresa de aposta online”, argumenta.

 

leia: Acordamos e descobrimos que as bets são um pesadelo

 

O analista da Ativa aponta que a empresa a ser mais impactada é a rede de supermercados Assaí. Segundo ele, a companhia é voltada para o setor de atacarejo que tem como foco central as pessoas de baixa renda. Já Rodrigo Simões, economista e professor da Faculdade do Comércio, concorda com esse desvio de consumo e que as empresas do setor de alimentos tendem a ter os primeiros cortes dos consumidores nesse cenário de disputa do porcentual da renda dos brasileiros que fazem apostas esportivas.

 

Esse conceito é chamado de share of wallet, que é exatamente o porcentual de consumo do indivíduo em determinado segmento ou local. Por exemplo, antes das bets, uma pessoa de baixa renda gastava 60% do salário com alimentação, 35% com contas básicas, vestimentas, aluguel e a parcela de móveis e 5% com o lazer, se sobrar.

 

Com a chegada das bets, ela passa a gastar 20% do seu salário somente com as apostas, trazendo uma necessidade de rearranjo dos demais gastos. Para Lucas Barbosa, da Ativa, e Rodrigo Simões, da Faculdade do Comércio, a redução viria do setor alimentício. Já Larissa Quaresma, analista da Empiricus Research, diz acreditar que o setor de alimentos seria o de menor impacto.

 

“Mesmo que o consumidor faça algum corte, o básico da alimentação deve continuar. Já as empresas que trabalham com o crediário, como as Casas Bahia, podem sofrer com a inadimplência. Essa acaba sendo a lógica do vício: você chega a um ponto de descontrole em que precisa escolher o que pagará, se é a comida ou o crediário, e as pessoas de baixa renda tendem a continuar consumindo alimentos”, argumenta.

 

A especialista da Empiricus diz que os setores de varejo alimentício e saúde serão os menos afetados pelas bets. Todavia, os de bens duráveis que trabalham com parcelamento via cartão de crédito ou crediário serão altamente impactados, o que para ela complica a situação para o Magazine Luiza, Americanas e Casas Bahia.

 

Já o analista da Ativa acredita que o impacto nessas empresas seria diferente, indo mais pelos produtos de menor preço, como um mouse. Desse modo, esse produto de médio e baixo custo tende a ficar no estoque, o que faz com que as empresas passem a ter um desarranjo no balanço. “Ao longo do tempo, o estoque vai aumentar e isso impactará o capital de dívida da companhia. No final, a varejista precisará fazer algumas remarcações, umas promoções e isso pesará também na rentabilidade da empresa no curto e médio prazo”, aponta.

 

Vale lembrar que as três empresas do setor varejista já estão em situação difícil ou tentando retomar a lucratividade. Daiane Gubert, da Melver, menciona o Magazine Luiza: a empresa conseguiu mostrar para o mercado no último balanço com melhora na rentabilidade. Segundo a especialista, a empresa tende a sofrer com o aumento de estoques e regressão da melhora do balanço.

 

No entanto, a mais impactada, segundo ela, será a Americanas. “A Americanas poderá ser ainda mais impactada, pois já possui desafios significativos na situação atual. As apostas representam um problema potencial a ser adicionado. As varejistas se reunirão em Brasília com a intenção de discutir o tema devido à urgência em função dos impactos e números alarmantes”, salienta Daiane Gubert.

 

Fonte: einvestidor.estadao.com.br 

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